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No caminho das artes visuais de Campo Grande - PARTE 3- MIS e Centro Cultural José Otávio Guizzo
Como era a Campo Grande que gerou os artistas pioneiros? O mosaico de fotos que salta aos olhos de quem entra no Museu da Imagem e do Som (MIS) ajuda a entender o clima cultural da cidade nos seus primeiros anos. Ao fundo, a fachada dos prédios modernos, imagem captada na virada do século XXI. Pelas lentes dos primeiros fotógrafos, o passado das cenas urbanas de Campo Grande. A atriz Glauce Rocha, de braços abertos, olha para o infinito. Os edifícios Olinda e José Abrão, que ainda hoje resistem. O charme dos cinemas com o cartaz de um filme de 1917 e a bandinha que preenchia o silêncio das películas mudas no Cine Trianon. O relógio da 14 de Julho, que migrou e o coreto da praça Ary Coelho, que virou fonte.
Ao som de um samba de Noel clássico, o visitante pode passear por uma ala repleta de rádios e aparelhos de som antigos. Um compacto de Celito Espíndola, como uma junção de tempos, repousa em uma vitrola velha.
É preciso agendar antes para conhecer as mais raras pérolas do MIS. O texto na parede promete o contato com um vasto mundo audiovisual de 10 mil peças. Fotografias históricas, projetores de filmes, câmeras fotográficas clássicas, cartazes e revistas ainda devem ser melhor organizados no novo local do museu, o Memorial da Cultura Apolônio de Carvalho. Também estão disponíveis cópias de produções cinematográficas cruciais na trajetória do cinema feito no estado: “Alma do Brasil”, filme mudo de 1932, de Alexandre Wulfes e Líbero Luxardo, e “Conceição dos Bugres”, 1979, de Cândido Alberto da Fonseca. Uma sala de projeção aberta para os visitantes, principalmente crianças das escolas, completa o contato didático com o universo de sons e imagens.
<b> Centro Cultural </b>
Não poderia ter nome mais adequado outro espaço de ver e sentir da cidade. O Centro Cultural José Octávio Guizzo foi batizado com o nome de um grande pesquisador da cultura do estado, amante do cinema, do teatro e das artes em geral. Sob o símbolo marcante de seu nome, o centro cultural se consolidou como local para se apreciar e produzir arte. Na década de 1980, quando foi instalado, pulsava, ali, a força de uma nova geração que procurou refletir sobre o fazer artístico. A instalação do curso de Educação Artística na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) ajudou a dinamizar a cena, promovendo constantes pesquisas, debates e oficinas.
O centro cultural era sede de aulas de animação com crianças, havia projeções de filmes e cursos diversos, tradição que persiste até hoje. Em seus murais pode-se conferir os cursos oferecidos atualmente. O interior do centro e seus detalhes são vistos por quem passa em frente às amplas janelas de vidro da sede, na rua 26 de Agosto. Não há como não notar que ali mora e se exercita a expressão artística. Já na entrada, está a galeria Wega Nery, sala historicamente dedicada às artes visuais. Por essas paredes já passaram inúmeros talentos campo-grandenses que, temporariamente, deixam suas obras visíveis atrás das janelas translúcidas do Centro Cultural José Otávio Guizzo.
Escrito por Alexandre Zárate Maciel às 18h01
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No Caminho das Artes Visuais em Campo Grande - PARTE 2 - O MARCO
Alexandre Maciel e Yara Medeiros
Mas o olhar à procura dos vestígios das artes visuais em Campo Grande não se encerra em Lídia. O acervo permanente do Museu de Arte Contemporânea Nelly Martins (Marco), permite novos passos dos primórdios até a atualidade. O museu tem uma sede de traço arrojado e localiza-se na beira do Parque das Nações Indígenas, área verde de circulação de esportistas, famílias, turistas, namorados. As amplas salas proporcionam suporte para variados tipos de expressão visual como instalações, projetos de design, videoarte, intervenções urbanas e esculturas, um salto direto para as manifestações mais contemporâneas.
Uma porta estreita avisa que há algo a mais lá em cima, no topo daquela escada. Ao lado dos trabalhos dos artistas campo-grandenses, dispostos de forma cronológica, convivem quase 50 obras provenientes de várias regiões do estado. Logo na entrada, os bugrinhos de Conceição Freitas da Silva sorriem ou olham sorrateiros. Talhadas em madeira, de forma rústica, essas esculturas são consideradas ícones de uma arte primitiva, que encantou críticos brasileiros na década de 1960. Aqueles bugres parecem estar conversando com os quadros restaurados, logo à sua frente. Lídia Baís, de volta, em forma de uma caveira sorridente e, ao lado, virginal, nua, com uma cruz na mão direita.
Em um giro pela sala, encontramos os espanhóis radicados corumbaenses Miguel Perez (1881-1976), com um retrato de uma nudez ingenuamente espionada e Antonio Burgos Villa (1900-1983), com esculturas e figurativos vasos de flores. Seus trabalhos estão ao lado dos quadros com um quê de Portinari da cuiabana que morou em Campo Grande, Ignez Maria Luíza Correa da Costa (1907-1985). Fechando o ciclo original das artes plásticas do estado, na esquina de um novo momento, o choque do abstracionismo de Wega Neri, que chamava suas obras de paisagens imaginárias.
“O Sopro”, de Humberto Espíndola, caracteriza a explosão de cores e temas da ala seguinte desse percurso. Pintado em 1978 representa, com ícones diversos, como o quepe, as estrelas de general e o chifre a divisão de Mato Grosso, assinalando o ápice de uma geração que não quis se isolar. A Associação Mato-grossense de Artes (Ama), criada em 1967 por Humberto e a crítica Aline Figueiredo, procurou costurar os nós soltos dos precursores das artes visuais. Símbolo do imaginário econômico e cultural, o boi, pincelado em diversos ângulos e formas, foi o ícone escolhido por Humberto na busca da tão almejada identidade iconográfica do estado.
Difícil fixar os olhos demoradamente sobre apenas uma obra diante de tanta diversidade de cores e liberdades. O pingüim altivo sobre a geladeira de Beto Lima. O erotismo contagiante de Genésio Fernandes. Ecos de uma origem remota no índio triste de Miska. Os traços indígenas revistos por Henrique Spengler e Adilson Schieffer. O clamor dos povos em Ilton Silva, o filho de Conceição. A timidez e o mistério na escultura da beata senhorinha de Irani Bucker. Novos suportes para as marcas e outros símbolos da modernidade de Heron Zanatta. Os aguapés não-óbvios que transbordam para fora do quadro do corumbaense Jorapimo. E outras tantas referências que, passo a passo, são reveladas na linha histórica proposta pelo Marco.
Escrito por Alexandre Zárate Maciel às 10h03
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No caminho das artes visuais em Campo Grande - PARTE 1
 Em primeiro lugar, mil desculpas pelo sumiço. Após primeiros meses de muito trabalho, 2007 finalmente abriu uma brecha de tempo para este professor voltar a postar seus delírios e visões de mundo. Escolhi, para esta retomada e, diga-se de passagem, muito feliz com os 13.889 visitantes que prestigiaram este espaço ao longo desses três anos de atividade, um texto meu, Alexandre Maciel e da minha esposa, também jornalista, Yara Medeiros. Resultado de um processo de observação de ambientes, muitas entrevistas e pesquisa, a matéria foi originalmente publicada na revista Comcultura, em seu especial a respeito do mundo das artes visuais em Campo Grande. Talvez você ainda encontre exemplares na sede da Arca, próxima à antiga estação ferroviária. Em suma, eu e Yara visitamos os principais espaços de exposição de artes plásticas na cidade e nos colocamos no lugar de um estrangeiro, um observador ávido de conhecimento. Humildemente, esperamos que este texto, que será publicado em vários capítulos, sirva de estímulo para que o próprio leitor tome a iniciativa de também fazer o percurso que desenvolvemos. Boa leitura e obrigado pela audiência
Alexandre Maciel e Yara Medeiros
Quem passa pela esquina da rua 15 de Novembro ao lado da igreja matriz de Campo Grande, não pode imaginar que, naquele sobradinho, a primeira artista plástica da cidade, Lídia Baís, fundou o museu de artes visuais pioneiro do município, no final da década de 1950. Apegada à reclusão, a artista acreditava, como escreveu em sua autobiografia “História de T. Lídia Baís”, que seu museu de arte era como um claustro. “Conforme já ouvi dizer por grandes psicólogos, é de fato um convento a casa de Lídia, onde tem músicas, pinturas, religião e vários outros estudos.” Não se sabe, sequer se o espaço foi aberto ao público, já que ela considerava que museus não eram apropriados para visitação. Quando residia ali, a pintora vivia cercada de animais de estimação, quadros e oratórios de santos. O seu velório aconteceu nesse mesmo cenário, com as pinturas ao seu redor, uma rara exposição pública da vasta produção da artista, algo em torno de cem peças. Lídia controlava os dias de visitação, de tal forma, que os seus privilegiados convidados sentiam-se envolvidos em um clima místico, que expressava a personalidade profundamente religiosa, registrada em vários quadros.
A Campo Grande da primeira metade do século XX era uma cidade provinciana que abrigava não mais que 25 mil habitantes. Talvez não estivesse preparada para a arte com traços modernos, surreais e expressionistas herdados por Lídia de seus primeiros mestres, Henrique Bernardelli e Osvaldo Teixeira, no Rio de Janeiro e Ismael Nery, em Paris, na década de 1920.
Apesar de religiosa, Lídia não era propriamente apegada à modéstia. Em seus escritos, já avisava aos membros da tradicional família Baís que eles iriam entrar para a história por sua causa. Entendia a necessidade da preservação do seu legado, tanto que organizou três catálogos com reproduções de suas obras e fotos da tradicional família Baís e amigos. Para perceber que a artista estava certa, basta descer a rua Calógeras em direção à avenida Afonso Pena. Logo na esquina, avista-se o imponente primeiro sobrado de alvenaria da cidade, construído por seu pai, Bernardo Franco Baís, onde Lídia viveu sua infância e parte da adolescência. Hoje, um dos principais espaços culturais da cidade, o Museu Lídia Baís abre ao público o mundo secreto da artista.
A sala de entrada da conhecida Morada dos Baís abriga um centro de informações turísticas que fornece os caminhos para que os visitantes possam conhecer a cidade que um dia estranhou Lídia. Antigos cômodos servem hoje de espaço para exposições temporárias de artistas contemporâneos. O museu Lídia Baís já exibe o talento pintado na parede, logo à direita, na altura dos olhos. Em uma alegoria celeste, Lídia está de pé sobre o planeta Terra, cercada de nuvens e querubins, coroada por anjos delicados, vestida de branco e azul, símbolos de santidade. O toque surreal está presente no retrato de um estranho ser rosa, animal indefinido, com rabo, orelhas e asas, que Lidia toca com a mão direita.
Outra parede, logo adiante, pode chocar. Uma obra de Lídia ocupa a parte superior, mas não está completa. Foi quebrada por ocasião da restauração do prédio, atingindo, justamente, a área inferior. Como as imagens foram cobertas de cal quando a residência dos Baís se tornou a Pensão Pimentel, entre 1938 e 1979, havia o alerta, no período de restauração, para que nada fosse executado sem a presença de um especialista. A desobediência ocasionou o desaparecimento de parte da pintura, que registra Lídia como uma Joana D’arc, montada em um cavalo branco e um detalhe peculiarmente surreal: um cachorro, com um pincel na boca, parece estar pintando parte do quadro.
A história registra que, no quarto original de Lídia, situado no piso superior do sobrado, também existia, na parede, uma pintura da artista e suas irmãs, nuas, da qual não há mais o menor indício. Suspeita-se que, por uma ação moral incontida, tenha sido raspada, o que impediu a restauração.
A imersão no mundo de Lídia se completa com a reprodução de seu quarto original. A cama, delicadamente arrumada com o enxoval da época, encomendada sob medida para os seus 1,45 cm. O cavalete de pintura com as marcas de tintas de diversas cores. O violão e a harpa, lembranças de uma compositora autodidata que ouvia, às vezes por meses, estranhas melodias em sua cabeça.
Sobre uma mesinha, a autobiografia e outro livro de referência a respeito de sua vida, escrito por sua sobrinha, Nelly Martins, “Duas Vidas”. O quarto está repleto de obras clássicas como a célebre pintura em que ela se coloca ao lado de Cristo em uma reprodução da famosa Santa Ceia, retratada originalmente por Leonardo Da Vinci. A sensação é a de ver Lídia passeando pela sua casa, perdida em pensamentos, observando com atenção os visitantes. Ela está ali, viva, séria, olhar inquisidor, nas fotos de época que ocupam a visão de quem sobe a escada até o piso superior. Cercada por sua família, vestida de criança para esconder a idade, moderna.
Escrito por Alexandre Zárate Maciel às 13h47
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Pogueando de nostalgia ou Caos no Pantanal
H.I.V. (1992), Crazy Dick (1990), Os Impossíveis (1993)? Estou, eu e Yara, no bar do Edgar, Farol, Boteco, Fim de Século? Largado em uma Campo Grande em qualquer canto da década de 1990? E esses caras das "antiga" pogueando, felizes, mais gordos, mais carecas, mais sérios ou mesmo cuspidos e escarrados como sempre foram? Esse clima de inferninho, calor de 45 graus, janelas fechadas, três acordes econômicos e poderosos rasgando a alma, a bateria estucando? As letras que misturam crítica social, mas, também, com uma banda em específico, alegria, amor, desilusão, elementos de histórias em quadrinhos e games? Por algumas horas permito mesmo que meu corpo e minha mente se deixarem ali, largados, naquele recorte de tempo que foi a festa "Caos no Pantanal", sábado, dia 4 de novembro, no Chacaras Bar.
A frase mais ouvida no recinto minúsculo, fechado, sufocante, porém explodindo de calor humano e nostalgia incontida, era: "Até você por aqui?". Ou: "Olha, veio toda a velharada". Ou ainda: "Olha, os caras das antigas". Muitos abraços calorosos de quem há muito não se via ou se falava, mesmo morando em uma mesma cidade e com todos os instrumentais tecnológicos. Mas o que estava vivo, ali, mesmo, eram as bandas já extintas, em suas formações originais. Todas se apresentaram em um canto, sem palco, constantemente dividindo os microfones com um público desvaidado, um chamanismo personificado naqueles pogos em poucos centímetros quadrados de espaço. Os mais novos achavam que era até porrada. Já mais gordo que na época, não me arrisquei a sair saltando, chutando, espalhando sopapos fictícios. Mas, encostado em outro canto, sorridente, transbordando de felicidade, entendia, anos depois, o signicado daquela cena.
O Crazy Dick foi a primeira porrada na cara depois da abertura competente dos Bizarros. Ver aqueles caras reclamarem dos mesmos problemas de som mas não ligarem, deixando a guitarra rasgar e gritando letras do passado, foi surpreendente. Nas letras, referências aos bares clássicos, à tradicional modorra de uma capital sem oportunidades, um vocalista carismático, sério, olhar incisivo, mastigando e cuspindo cada palavra como uma profecia realizada. O público, a princípio quieto, logo inicia o balé dos braços e pernas estiradas aleatoriamente. Suo às picas. Não tem circulação de ar, mas a emoção aumenta devido justamente à lembrança daquelas velhas condições. Um ambiente clean, com som limpo, seria um desrespeito com aqueles clássicos, feitos para serem devidamente deglutidos em forma de maçaroca sonora, um golpe certeiro nas vértebras.
Sempre nutri um carinho especial pela banda Os Impossíveis. Fugindo da necessidade da crítica social premente, Cebola, o vocalista carismático e com um estilo ultra-pessoal entre Elvis e rockabilly desvairado e Jean, hoje um dos maiores bateristas do estado em seu gênero, maduro, coerente, sempre preferiram abordar temas-tabu, como o amor (????) por exemplo. Tudo destilado com uma fina ironia que não se encontra tão facilmente na cena atual, mesmo a de pop rock clássico. A performance foi um show a parte, comandada pelos gritos de Cebola: "Toque mais uma, maestro". O canto, agora, é coletivo. Tanto dos que lembram de todas as letras de cor quanto os que, não contentes com a participação de fora, invadem o canto do bar improvisado como palco e tomam os microfones para cantar juntos, catárticos. Será o efeito da sexta cerveja garrafa, do suor, do sufocamento ou vivo mesmo uma estranha sensação de comunhão quase dionísica, pagã?
Para o H.I.V., a clássica banda de Kão e o nosso saudoso e hoje pai de família, Vander, uma pausa para dar uma respirada lá fora. Em uma mesinha, fitas-demo saídas de baús, registros a R$ 3,50 de muitos petardos que nunca foram gravados em CD. Lembro da facilidade da tecnologia atual, da forma muito mais dinâmica de troca de informações entre bandas, via e-mail, My Space, You Tube, Orkut, páginas pessoais, trocas de MP3, gravações em estúdios caseiros, mil selos alternativos. Recordo da dificuldade enfrentada pelos punks de Campo Grande e do estado na década de 1990: a correspondência por cartas, os shows improvisados nos locais mais estranhos, o esquema de intercâmbio de bandas a troco de chucarrasco e estadia. Aquela vontade de sacudir a modorra de uma cidade sertaneja da porra...
Kão não se cabe de felicidade. Agitador cultural clássico, ainda em plena atividade, figura fácil em todas as baladas underground, esse senhor que não perde a cara de menino punk é o significado presente de tudo aquilo. "Moro em Campo Grande, cidade pantaneira" é bradado por todos os trinta ou mais presentes. De arrepiar. A essa hora, não importa mais a qualidade do som, o calor, as instalações. Importa é o tesão da recordação de uma cena única. Fico contente ao saber que as bandas vão continuar as suas apresentações, em outros locais, como fizeram mesmo, no domingo, em um evento aberto. Precisamos organizar um show para filmar todos os depoimentos, as histórias de época, entremeadas pelas performances recheadas de atitude. Me ofereço para ser o entrevistador. E vamos poguear para o infinito...
Escrito por Maciel às 18h44
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Impressões da Paulicéia 2- Rapa sob o Masp ou sob a benção de Chatô
Aqui, olhando debaixo, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) parece uma caixa de vidro e concreto. Curiosa a sua arquitetura de 1968 não apresentar muito contraste em termos de modernidade com a suntuosidade dos prédios da avenida Paulista. A via da loucura, o coração financeiro de São Paulo, palpita alguns metros adiante. Carros em alta velocidade, sirenes, pessoas que, ainda acredito, andam depressa mais por uma reação natural da cidade do que pelo fato de realmente estarem com pressa de chegar a algum lugar. Como jornalista, imagino a força do sonho de um homem como Assis Chateaubriant. Doido, trouxe para o Brasil quadros de Cezanne, Van Gogh, além de uma invejável coleção de arte moderna brasileira. O mesmo visionário contraditório e de princípios antiéticos que concretizou a aventura de trazer a primeira emissora de televisão em 1950 para o Brasil. O país foi o quarto a conhecer a telinha no mundo.
Estou sentado com o meu amigo Giovanni em uma área dominada por hippies à sombra do museu. Este separa essa área e a avenida Paulista. Abaixo, observo o movimento de outras ruas, já que estou em um amurado. Estamos conversando com um rapaz que, por coincidência, diz ter nascido em Campo Grande e saído cedo da cidade. Fala do seu trabalho de artesanato enquanto costura uma touca com uma linha verde. Fascino-me com o social. De repente, um picolezeiro se aproxima da conversa com um olhar meio assustado. Puxa assunto, fala um tanto descompassado. Logo percebemos o motivo. Do nada, soa uma sirene intensa e divisamos motos e policiais se aproximando, invadindo a espécie de calçadão em que estamos.
Susto. Será que vão nos acusar de alguma coisa? Mas logo essa impressão passa, pois, na verdade, os quatro guardas, entre eles uma mulher, querem mesmo é dar uma chincha no picolezeiro.
- Olha, nós já avisamos você que mudou o chefe da área.
- Mas vocês tem de me deixar trabalhar, não podem fazer isso com um trabalhador. Como posso sobreviver?
Os policiais, mesmo diante da gente, sequer nos dirigem palavra. É como se fizessem um teatro particular para os turistas. Para mostrar que não há vez para ambulantes clandestinos na Paulista, na Babilônia em chamas. Ainda de coração disparado, continuo conversando com o rapaz da touca e de olho na cena de repressão que se desenrola à nossa frente.
- Olha lá, eu avisei. Está vindo o novo chefe.
Realmente vem chegando um cara gordo com um traje branco, para assombro do picolezeiro, que está indignado. Os policiais abrem o compartimento do carrinho e tiram, sem cerimônia, as placas que congelam os sorvetes. Não levam a mercadoria, preferem agir com mais sadismo, inviabilizando-a. Aproxima-se também um furgão para recolher devidamente a mercadoria proibida, as placas. A partir de então o grosso dos policiais embarca no veículo, o motoqueiro sobe na moto e partem em velocidade para a Paulista. Há muitos a policiar, perseguir, torturar psicologicamente.
O picolezeiro, irônico, não se intimida e ainda aborda os policiais já dentro do carro enquanto espera a chegada do fiscal que vai multá-lo.
- Porra, vocês tem que ir para a favela onde o negócio tá pegando fogo. Vai prender bandido, não incomodar trabalhador.
- Lá a chapa está quente. O bicho está pegando - responde o policial antes de sumir do mapa.
A cena termina com o picolezeiro aplaudindo a caravana que parte e o fiscal que chega.
- Belo trabalho. Parabéns.
No dia seguinte, voltei ao Masp, agora para conhecer o museu com Yara. Infelizmente, não há nenhuma exposição temporária, só a permanente. Esta, no entanto, vale a pena. Me emociono com um quadro de Cezanne, duas mulheres navegando em um lago. Também é impressionante o quadro "Tentações de Santo Antão", do mestre flamengo Hieronymus Bosch impressionante surrealismo, pintado em 1500, o retrato de um pesadelo desconexo e cheio de figuras muito estranhas, meio humanas, meio animalescas. Não há como não ficar impassível ao jornaleiro de Van Gogh, ou ao solitário passeio do casal no jardim do mesmo autor. Aquelas cores borradas, esquizofrênicas.
Durante nossa visita ao museu, um grupo de crianças aprende sobre arte com uma orientadora. Ela ensina que é preciso olhar o quadro de perto e de longe também, para melhorar e apurar a perspectiva sensível. Lindo. Também percebo a decadência do museu, já que boa parte do acervo clássico parece ausente, talvez em viagem, mas, provavelmente, em reconstituição. Impossível observar com atenção todos os quadros. Lá fora, na Paulista, o quadro social se descortina. Cruzamos novamente com a trupe de policiais que havia comandado o show de truculência no dia anterior. Olhares atentos, desconfiados. Ainda escuto, baixinho:
- Olha, ali vai outro. Vamos pegá-los.
A Babilônia prossegue respirando, exasperada...
Escrito por Maciel às 19h55
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Impressões da Paulicéia 1 - Chico no tom ou caipirinha 9 paus
Ao entrar na casa de shows Tom Brasil, em São Paulo, lanço uma praga involuntária sobre o sistema de vendas de ingressos por internet. Mesas coladas, seis pessoas apertadas em cada uma,inclusive de costas para o palco, distantes anos-luz do artista. R$ 150 paus para isso? A noite tão esperada de assistir um show de Chico Buarque, desde a primeira coletânea comprada pelo meu pai aos 12 anos, com o compositor tragando um cigarro, parecia começar mal. Pelo menos o casal da frente é simpático. Dizem que, como eu e Yara, nunca viram o show do homem. Vieram do Paraná e também estão fulos com as acomodações. Peço o cardápio e percebo mais uma surpresa. Cerveja R$ 6,00 a lata?? Será que entrei em um puteiro por engano? Água R$ 5 mangos? Puts, o melhor foi pedir duas caipirinhas atoladas de gelo aos preços "camaradas" de 9 reais cada uma...E fechar a conta que o táxi já custou R$ 70,00 ida e volta.
Tento não pensar nos gastos e me preparar para o show. A primeira medida é puxar a cadeira para um corredor próximo, enlaçar minha mulher e ter, assim, uma visão longínqüa, porém mais confortável do palco. Percebo o cenário, simples, econômico. Uma estrutura de metal representando de um lado, o sol, de outro a lua e amparando um lindo planetário caleidoscópico. Durante o show, uma profusão de luzes variadas rebatia nesses pontos de reflexo e criava imagens bastante curiosos. No mais, o cenário se completa com a capa do disco.
Já vim para o show armado, preparado demais, o que prejudicou minha relação de emoção com o artista. Como tenho todos os discos, sei letras de cor, o caramba, achava que seria uma choradeira do começo ao fim. Não foi o caso. Tanto eu fui racional quanto Chico Buarque, técnico demais no palco, apesar de sublime. Sabia que seriam as 12 músicas do disco, que estou ainda assimilando. Sabia que o show seria completado com um repertório mais anos 1980 do que 1970 e 1960 o que, com certeza, decepcionou muita gente. Neste quesito não me espantei, gosto da fase focada, que traz pérolas do tipo "Mil Perdões", "Ela é Dançarina", "As Vitrines", "Morena de Angola", "Sambando no Toró".
Entra a banda. O melhor da festa. Wilson das Neves é um furor no comando de vários elementos percussivos, realmente um músico excepcional. Em parceria com Chico Batera na bateria e Jorge Helder no baixo, formam uma cozinha furiosa, extremamente inteligente. Luiz Cláudio Ramos, no violão é a cabeça melódica e harmônica do show, técnico, sério, dedos passeando lépidos pelas cordas. Marcelo Bernardes é doçura pura na flauta, clarinete e flauta transversal, que fazem toda diferença na primeira canção própria que Chico emenda: "Mambembe", essa, da década de 1970. "Morena de Angola", de 1981, levanta o público, que bate palmas junto e ri muito do esquecimento de um dos versos da música quilométrica. No lugar do "ai, ai,ai,ai,ai,ai", que, no disco original é comandado por um coral feminino, entra em cena um curioso instrumento africano que gera frisson ao ser filmado em um dos três telões que me ajudam a enxergar melhor o contexto geral do palco.
Após essa seqüência matadora inicial, Chico emenda um inusitado bloco blues/jazz com a pouco conhecida "História de Lily Braun", do disco "Grande Circo Místico", emendada com "Mil Perdões", com célebre refrão ("te perdôo por te trair") e, pasmem, "A Bela e a Fera", obscuríssima, antes só interpretada por Tim Maia. O show entra, então, em um perigoso período de músicas muito lentas e pouco conhecidas. Chico emenda todas as músicas românticas do novo disco e vai tentando costurar contextos (a alma da set list) com as mais conhecidas "Eu Te Amo" (Ah, se já perdemos a noção da hora...) e "As Vitrines" (...na galeria, cada clarão é como um dia depois de outro dia...). Como fã, acho tudo muito inteligente, porém pouco emocional. Cada letra parece emendar com a outra com perfeição. Por exemplo, na seqüência: "Ela é Dançarina" (...o nosso amor é tão bom, o horário é que nunca combina...); "Ela Faz Cinema" (...quando ela chora eu não sei se é dos olhos pra fora...) e "As Atrizes" (...são tantos filmes na minha mente que é natural que toda atriz...). Há, também, constantes homenagens ao Rio de Janeiro, como "Morro Dois Irmãos" (...Dois Irmãos, quando vai alta a madrugada...), "Futuros Amantes" (...e quem sabe então o Rio será, alguma cidade submersa...) e a bela faixa inicial do novo disco, "Subúrbio" (...lá tem Jesus mas está de costas...).
O melhor fica para o final. Um cara passa com uma lanterninha estratégica ao meu lado na mesa e aproveita para cobrar a facada de R$ 18 paus pelas duas caipirinhas. Resolvo burlar as mesas e vamos, eu e Yara, para a frente do palco. Chegamos a tempo de ver uma apoteótica interpretação de "Quem te Viu, Quem te Vê", devidamente entoada em conjunto pelos presentes, "João e Maria" (...agora eu era herói...) e do animado samba "Sem Compromisso" (...Você só dança com ele e é sem compromisso...). Todos parecem satisfeitos. Todas as mulheres apaixonadas, inclusive a minha. Até um cara grita:
- Chicooo eu te amo.
Ainda tento gritar uma mais inusitada:
- Jorgeee Maravilhaa.
Ninguém conhece e muito menos eu sou ouvido, já que o burburinho no final do show é geral, com todo mundo já de pé nas suas mesas, quebrando toda lógica capitalista-sardinha. Saio feliz, afinal era um sonho antigo. Mas queria ter batido uma bolinha com Chico depois do show e dizer:
- Faltaram aquelas...
Escrito por Maciel às 16h41
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Ah, minhas queridas revistas femininas (sem viadagem)
Muito do que eu sei sobre as mulheres aprendi com as revistas femininas. Elas entraram cedo em minha vida. Mãe professora, fiel assinante destas publicações. Meu interesse não era movido por alguma tendência homossexual, mas, sim, por uma questão crucial para um menino de 12 anos. Como estava iniciando a vida de horas a mais no banho ou no banheiro (precisa ser mais claro?) aquele desfile de mulheres seminuas, lindas, principalmente nas revistas de verão, era um paraíso.
Certa vez perguntei para a minha mãe porque as revistas femininas pareciam masculinas, pois estavam cobertas de mulheres se exibindo de todas as formas e jeitos. Na minha cabeça, uma publicação deste naipe, naturalmente, exibiria homens, atores. Ela me respondeu com um segredo clássico de vocês, meninas: "Ah, mas as mulheres adoram analisar as outras. Quem compra revista com homem é bicha". Com este contato didático constante que mantive com os periódicos destinados ao sexo feminino, cedo pude perceber quais eram as suas principais características e diferenças.
A Nova era a minha preferida. Mulheres liberais, livres dos maridos, soltas, sexualizadas, feras na cama e fortíssimas na disputa pelo mercado de trabalho. Adorava os encartes lacrados no centro da revista discutindo sexo pela perspectiva feminina (aliás, sou muito grato a eles até hoje). Mulher "Nova" era puro anos 80, ouvia rock, não tinha grilo na cabeça. Já a revista Cláudia era mais conservadora. Em edições especiais as próprias editoras da publicação relembravam dos primeiros números. Na década de 1960, as matérias sempre pregavam o melhor estilo "dona de casa", com a missão de esquentar o jantar para o marido enquanto ele assiste o Jornal Nacional após um dia cansativo de trabalho. Mesmo na época em que lia a revista, apesar da visão feminina aparecer mais atual, com as mulheres no trabalho, o marido era sempre lembrado como um parceiro importante. Nada de mulheres seminuas, nem de sexualidade exacerbada, muito menos mulheres que sabem como se goza. Não gostava muito não.
Um dia minha mãe assinou a Marie Claire. Já estava mais velho, banhos menos demorados, primeiras namoradas. Esta se adequava mais ao que eu esperava do sexo feminino. Pareciam interessantes aquelas que liam as reportagens engajadíssimas sobre mulheres no Oriente Médio, bissexualismo, vício em drogas, temas comuns naquelas páginas. Sem preconceito para aprender as formas mais "orientalizadas" de vida sexual, mas não tão atiradas assim. Ainda hoje acredito que esta seja a melhor publicação para mulheres, apesar de há muito tempo não ler mais estas revistas. Hoje, a convivência com a minha esposa Yara, um misto das melhores coisas que eu sonhava em uma mulher quando lia estes periódicos, representa o meu aprendizado diário. E como falta aprender...
Escrito por Maciel às 18h00
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Uniforme do Power Rangers ou Indústria Cultural
Sou professor de Teoria da Comunicação, matéria que costuma assustar os alunos só no nome. Você pode optar por ser um docente massante, tratando das idéias muitas vezes complexas que foram desenvolvidas a respeito da influência da mídia ao longo do século XX e nesse novo milênio. Opto pelo segunda opção: aprofundar a visão dos mesmos autores relacionando com a vivência dos meus alunos e com o mundo tecnológico moderno.
Todos os anos desenvolvo uma prova tradicional que já se tornou conhecida. Antes é preciso dizer que nunca sigo o estilo "decoreba", com perguntas e respostas positivistas. Minhas avaliações são sempre textos em que os alunos são estimulados a desenvolver uma reflexão fundamentada nas idéias dos autores, com uma introdução e conclusão bem "amarradas". Minha questão básica é: "conte a história do seu relacionamento de influência e repulsa com os meios de comunicação de massa e seus produtos e relacione com as idéias dos autores".
Sempre estimulo que os textos sejam criativos, soltos, costumo publicar os melhores no espaço CRÔNICAS do site acadêmico www.unifolha.com.br, com o padrão: "Histórias de Mídia". Os alunos ficam bastante animados com esse método e acabam refletindo bastante, em uma espécie de auto-análise midiática, até que ponto seus atos são guiados pela televisão, internet, rádio, jornais, revistas. E dá-lhe Xuxa, Malhação, Meninas Super Poderosas, desenhos japoneses, muitas e muitas referências, principalmente televisivas.
A prova mais hilária que eu já li com este tema e que mereceu um 10,0 recebeu o título: "O Uniforme dos Power Rangers". Em um texto muito bem escrito, o meu aluno Carlos Celso apresenta um exemplo contundente de sua vida que define plenamente o conceito de Indústria Cultural. Criado na década de 1940 pelos teóricos marxistas alemães Theodor Adorno e Hokheimer,a idéia é que a cultura, na era tecnológica do capitalismo moderno, virou pura mercadoria. Ou seja, os produtos são criados para gerar lucro, o que contaminou o cinema, os programas de rádio, a televisão e mesmo o jornalismo. Tudo é padronizado, igual, feito para manipular e "narcotizar" as consciências.
Pois meu aluno lembrou que era fascinado pelos Power Rangers, que todos sabem quem são. Mas como sempre foi gordinho, sempre se ressentiu de não ter um uniforme azul, do herói de sua predileção. O motivo: como são produtos da indústria cultural que move milhões com a série de desenhos animados, os uniformes para meninos de 12 anos (idade que o acadêmico tinha na época) eram feitos para rapazes magros, em fase de desenvolvimento, ou seja, cultura padronizada. Ri muito e elogiei publicamente a prova como faço agora. Leia você mesmo no site mencionado, junto com outras histórias igualmente reveladoras.
O bom de aplicar esse tipo de prova e de ser professor de uma matéria que analisa a influência da mídia ao longo dos séculos para turmas de primeiro ano é que nunca vou encontrar jovens iguais. Vou estar sempre atualizado sobre as influências midiáticas de cada geração. Pretendo, em breve, sistematizar essas "provas-pesquisa-psicológicas" em um artigo científico que, com certeza, vai mostrar a cara de uma geração.
Escrito por Maciel às 19h32
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Black Metal e João Gilberto
Em 1994 morava em uma pensão para estudantes. Partilhava o meu quarto com o saudoso e falecido Ricardo Fornazari, estudante de Física. Ele, amante do black metal, estilo musical marcado pela temática satanista nas letras e com sonoridade hipnótica, compassada e pesada. Eu, com uma coleção já considerável de CDs divididos entre rock clássico 60 e 70 e música brasileira.
Antes de dormir, hora em que conversávamos, gostava de aprender mais sobre essa tendência do rock, suas origens, manifestações pelo mundo. Aproveitava para mostrar os primeiros cinco registros fonográficos do Black Sabbath, ainda com um endemoniado Ozzy Osbourne, o que parecia para mim algo mais próximo de uma influência do final da década de 1960. Quando dormíamos, sempre prevalecia, ao fundo, o som de algum ícone do black metal, de preferência os mais lentos, climáticos, menos guturais. Bom para pegar no sono. Nunca botava uma MPB por respeito à ideologia do amigo.
Certa noite, Ricardo havia viajado. Resolvi, então, alternar o panorama sonoro noturno e coloquei para rodar um CD de João Gilberto. Peguei no sono rápido, cansado, provavelmente durante uma suave e quase sussurrada interpretação de "Desafinado". Sonhei que estava no cume de uma montanha, tranqüilo. Olhava para baixo, onde se descortinava uma bela paisagem, mata fechada, árvores altas. Resolvi saltar. Sem hesitação, saltei. Susto abrupto. Acordei no chão, tombado, após uma queda verdadeira. Dor. Corte leve, mas doloroso e formando uma linha extensa no lado direito da barriga. Porra.
No afã do sonho tinha subido na cama e saltado para o chão. No caminho, uma estratégica cadeira de madeira com o danado de um prego meio exposto, pronto para ferir. Levantei-me e sentei assustado na cama para pensar naquela manifestação atípica de sonambulismo que, aliás, nunca havia tido e nunca mais enfrentei. Ao fundo, um clássico até a medula da música tupiniquim: "Chega de Saudade". A voz de João, clara, nítida, embalada pelo piano de Jobim e uma orquestra magistral. A batida ritmada do violão, cadência marcante.Só então ri. Foi demais para os espíritos do Black Metal aquela invasão tão inesperada e visceral de suavidade e temáticas de sol, mar, amor, sorriso, flor.
Passei um mercúrio cromo e voltei a dormir. Nada mais aconteceu, Ricardo riu bastante da história. Por precaução, nunca mais saquei nenhum exemplar da minha coleção para acalentar meus sonhos. Pelo menos enquanto vivi na pensão da Dona Maria.
Escrito por Maciel às 13h31
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Primeiro gol
Amargava a angústia de nunca ter feito um gol. Miopia desde os 11. Medo de quebrar as lentes nas aulas de Educação Física. Se joguei 10 partidas na vida talvez esteja exagerando na contagem. Me lembro do período do ginásio, todos driblando, torpedeando bombas ao gol. Alimentando até sonhos de futuro nos campos. Eu ali, tímido. Na defesa para não ter de me apresentar nas jogadas. Óculos custa caro. Às vezes crescia um lateral sedento diante daquele cara alto e magro.
- Não deixa passar, boi de quatro olho...
- Vai supermaaaaaannnnn.
Apelidos da época. Sempre evitando machucar o camarada, tentava meter um pé na bola para travar, respeitoso. Quase sempre ouvia as risadas em seguida. Diante do péssimo desempenho, decidi disputar a última partida da minha vida. Aula normal de escola estadual, dois últimos tempos de sexta-feira. Dom Bosco, quadra coberta, Corumbá, 1986. Eis que o "magrão", outro apelido deste modesto jogador, em um lampejo inesperado surpreendeu a equipe adversária. Driblou um e tocou com perfeição para um atacante, abatido logo adiante. Pênalti.
- Põe o Clark Kent pra bater, ele armou a jogada.
Está ótimo. Última partida da vida, pelo menos um gol para registrar na história. De honra e pronto. Todos os colegas me cercaram, irmanados na expectativa. Afastei, aquela olhada para o lado para enganar o goleiro, corridinha, parada brusca para enfeitar...Chute. Passou anos luz da tinta da trave. Seguiu-se um silêncio muito breve, logo quebrado pelas risadas habituais. Gargalhadas, sacanagens. Péssimo fim de carreira e ao mesmo tempo revelador. Não havia nascido para o esporte amado no meu país.
Corte no tempo, gingada de câmera, 2006, março. Giovanni solta a idéia.
- Vamos fazer a Copa da Madrugada no Maciel.
Moro no Coophafé, em frente à uma praça com uma quadra de futebol. Chamamos os amigos, cerveja na concentração. Meia noite todo mundo sobe para acompanhar partidas de muita emoção. Até súmula teve. No time, cinco pessoas, "Os Maçanetas". Enfrentando a experiente escrete do "Intrometeu Clube de Regaças". Posicionei-me na defesa, um filme passou na cabeça. Esperava pelo menos não ter risadas desta vez. Atuação discreta, na bola, impedir algumas chegadas dos talentosos adversários.
Mas eis que, de repente, me vi novamente com a bola nos pés, seguindo em diante. Defesa perdida, lance de sorte. São instantes de observação arguta da geografia à frente. Cepa no gol, magro, alto. Eu, 20 quilos mais gordo que aquelas manhãs da década de 1980. O goleiro cresce na minha frente. Lembrei de milhares de imagens de futebol e toquei com categoria meio inconsciente para o lado. A bola deslizou para dentro, linda.
- Ahhhhhhhhh. O primeiro gol da minha vida. O primeiro gol da minha vida.
Um desvairado corre o campo. Todos riem, mas as risadas agora soam muito melhor. De diversão, respeito. Jogador maduro, saí todo quebrado da partida. Cheguei a fazer mais um, vingança contra o destino de perna-de-pau. Para sublimar o trauma. Sobrou na confusão da área e, sem óculos, incrivelmente vi a bola e toquei no canto, fácil demais. Até minha vó, 94 anos de futebol, faria.
Ficou, mesmo, a memória do primeiro gol. Sem mídia, sem celular filmando, só a lembrança daquelas risadas.
Escrito por Maciel às 13h46
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