mosaicos de prosa
   Mil real

Um casal, cinco filhos, quatro bicicletas. Talento no comando de uma câmera por parte de um diretor estreante, Vicente Amorim. O road movie "O Caminho das Nuvens" combina estes atributos com a atuação irretocável de Wagner Moura (Romão) e Cláudia Abreu (Rose), progenitores de uma família que deixa o nordeste com direção ao Rio de Janeiro, todos de bicicleta.

Ele é irredutível e áspero: quer um emprego de "mil real". Ela, qualquer sustento para os seus filhos, entre os quais um bebê. O roteiro fixa bem o conflito entre o pai e o primogênito (Antônio), vivido por Ravi Ramos Lacerda, de Abril Despedaçado. O menino, em pleno processo de amadurecimento, não suporta o fato do pai não aceitar nenhum ofício e persistir em uma viagem que lhe parece um grande equívoco.

Sucessos de Roberto Carlos "Como é Grande o Meu Amor por Você" e "As Curvas da Estrada de Santos" foram cedidos pelo compositor para compor vários momentos de grande dramaticidade do filme. Mas a trilha de André Abujamra é que costura tudo com habilidade, com guitarras lamuriantes. A miséria salta na tela naquelas locações habituais do sertão, com religiosidade pulsante e "bicos" dos mais curiosos para driblar as dificuldades da vida. Brasil puro, ainda mais a participação rápida de Sidney Magal (!!!)



 Escrito por Maciel às 23h08
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   Alceu no circo

Coro coletivo de "Asa Branca", clássico de Luiz Gonzaga, preenche a pequena tenda armada. Um público de menos de mil pessoas, intimista, entoa o clássico de Gonzagão. O maestro Alceu Valença controlou as vozes da platéia o show inteiro. Qualquer entonação vocal que mandasse as pessoas retornarem, eram prováveis, até um tirilrilrilril.

Circense, Alceu não queria ninguém parado. Enfileirou, logo de cara, "O Canto da Ema", que fala da dita cuja gemendo no tronco do Juremá, anunciando o fim de um amor. E o clássico refrão de Jackson do Pandeiro, "compraste, comprei, pagaste, paguei, quanto é que foi? Foi 500 réis". O cello e a guitarra, acompanhadas por um eficiente aparelho percussivo comandado pela figurassa performática Eduim das Olinda, quilos mais magro, deitaram a lona para o palhaço Alceu aprontar das suas.

"Como Dois Animais", "A primeira Manhã", "Solidão", "La Belle de Jour". O hitmaker pernambucano foi pelo caminho dos sucessos e acertou. Em certos momentos parece que ele encarava alguém fixamente no público, sorria. Será para mim que ele olha? Todos pensam. Busca de cumplicidade em um olhar amigável. "Sempre quis gravar um CD ao vivo nesta terra e acabei gravando no Rio de Janeiro", declarou, arrancando aplausos.

Quem tinha ido no show do sábado comentava que o do domingo estava emanando um clima muito mais intenso, divertido. Enquanto Eduim das Olinda gerava uma máquina de ritmo com o seu kit de percussão, o filho de Alceu Valença, Rafael, 5 anos, olhava o pai no canto do palco, absorto. Até que papai resolveu, no bis, fazer uma brincadeira. O menino entrou no palco e deu um show.

Seguindo a performance do pai, socava a baqueta no pratinho, incrivelmente inserido no ritmo. Paizão sorridente, coruja. "Ih, gente. Não ensinei nada disso dele para ele não".  "Morena Tropicana", com o novo integrante da banda, ganhou um tom especial. De encher a alma de carinho. Pela pureza da infância que Alceu resgata em cada um dos corações. Um show deste todo domingo e Campo Grande seria menos ríspida e individualista. 



 Escrito por Maciel às 12h01
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   Moore cacetadas

Quem assistiu ao documentário "Tiros em Columbine" ou leu "Stupid White Man" sabe que Michael Moore é osso indigerível. Assisti, em DVD, um dos seus primeiros petardos, "Roger e Eu", de meados da década de 1980, com um Moore bem mais magro, mas igualmente ferino, afiado.

Tendo como mote o fechamento de uma imensa fábrica da General Motors em sua cidade natal, Flint, em Detroid, Moore aborda a conseqüente onda de desempregos e falência de pequenas empresas satélites. O interessante é que o documentarista decide ir atrás do presidente da empresa, o Roger do título, em vários lugares dos EUA.

É óbvio que o caminho recomendado pelos Relações Públicas da empresa, de marcar uma reunião por telefone ou fax não dá certo. O jeito é penetrar em festas grã-finas, clubes privês ou cerimônias em que Roger pode estar. Em paralelo, Moore tem a idéia genial de acompanhar um profissional responsável por colocar na rua, literalmente, pessoas que deixaram de pagar aluguel devido à crise que se abate na cidadezinha.

Nem a miss local é poupada da pergunta que Moore faz a todos: o que você acha da onda de desemprego causada pelo fechamento da fábrica? A reação da beldade, interrompida no meio de um desfile sorridente em carro aberto é de rolar de dar risada. Sem falar no escracho que o homem faz com os messias protestantes e da Amway que invadem o município para capturar os desesperados com suas lorotas.

Ponto alto para o registro de imagens de uma festa de milionários da cidade na qual os desempregados são usados como estátuas vivas e a entrevista com velhinhas ricas jogando golfe. Uma delas atribui o desemprego à preguiça dos trabalhadores.

Moore choca tanto porque desnuda um EUA pouco conhecido, de credores, desempregados, espertalhões e multinacionais sacanas. Estou ansioso para assistir o novo do cara, que mostra as relações da família Bush com Bin Laden. Afe.



 Escrito por Maciel às 13h18
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   Efeito irreversível

Está certo que encarar a cena de um rosto desfigurado de forma gradativa e violenta por um extintor de incêndio não é nada agradável. Ou que acompanhar um longo estupro, em câmera parada, com um sentimento de impotência, talvez seja para poucos. Estas duas seqüências geraram todo o celeuma em torno de "Irreversível", que agora já pode ser encontrado em DVD.

A narrativa ao contrário não chega a ser tão complexa como em "Amnésia", mas se presta a outras surpresas. A história, aliás, é bem simples: namorado sai em busca de vingança contra o homem que estuprou sua mina em um túnel. O curioso é o jogo de moral que o diretor cria nas cabeças dos expectadores.

Ao mesmo tempo em que encaramos logo de cara uma festa gay depravadíssima e nos chocamos, temos oportunidade de compará-la com um bate cocha playboy, com quilos de cocaína e permissividade. Quando um assassinato acontece, logo no início, o encaramos como brutal. Depois, parece justificável.

Contribui para o efeito de entorpecimento dos sentidos e da racionalidade os movimentos vertiginosos de câmera que chegam a entontecer. Ao final da sessão caseira, me choquei. As imagens ainda perduram, intensas, na minha cabeça. Mas a narrativa como um todo é bastante criativa, ao mostrar os personagens em um processo de raiva incontida para a extrema tranqüilidade. Inventivo. 



 Escrito por Maciel às 15h21
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   Che em aprendizado

O sentimento mais intenso que Walter Salles consegue despertar no espectador de "Diários da Motocicleta" é o da urgente unidade latino-americana. Oprimidos ao longo dos séculos, os habitantes dos países deste continente continuam distanciados cultura e socialmente.

Esta já era a realidade patente em 1952. Um jovem estudante de Medicina, que seria futuramente conhecido como Che Guevara, e seu companheiro, Granado, encararam uma viagem cheia de emoções pela América Latina, acompanhados, a princípio, por uma velha motoca.

Apesar de manter uma sinceridade desconcertante, Che ainda não alimentava sonhos revolucionários neste período. Esta característica permitiu a Salles a possibilidade de construir um personhagem falível, cheio de angústias e dúvidas. Bem distante do herói idolatrado hoje pela mídia como um dos principais líderes da Revolução Cubana e, posteriormente, assassinado nas selvas da Bolívia.

Aqui, Che é doutrinado pela miséria que encontra no caminho e pela indiferença que percebe nas atitudes dos poucos abastados. Também depara-se com humanistas, como os médicos de um leprosário. Mesmo assim, dominados pelos mitos e dogmas de irmãs católicas, contestadas por Che. Os atores latinos e o respeito ao idioma castelhano, bem como o uso de figurantes de vários países conferem uma veracidade incrível à reconstituição de época.

Walter Salles seguiu o mesmo trajeto que Che, indicando, em cada cena, o quilômetro exato dos aventureiros. Ele relatou, em entrevista, que teve de "desempobrecer" um pouco a Argentina atual, pois a situação de miséria neste país está mais gritante do que na época da viagem relata no filme. Ponto para a atuação dos atores centrais, principalmente o que interpreta Chê, Gael Garcia Bernal e o seu amigo Alberto Granado, vivido por Rodrigo de la Serna.

As expressões de assombro de Bernal diante de um novo mundo que descortina-se diante dos seus olhos são reveladoras. O roteiro também é hábil, com um jogo de díalogos vertiginosos entre os protagonistas. Salles ruma para a notoriedade mundial como um diretor respeitável. Tomara que os seus temas continuem seguindo a direção desta unidade baseada na amizade.  



 Escrito por Maciel às 18h20
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   Glauber desconexo

Glauber pulsava ideologia. Queria ver o cinema subdesenvolvido arrasando todas as estruturas. Retratar o Brasil da fome e do fanatismo. Aniquilar o sentimento de mediocridade tupiniquim. Construir filmes sem ordem direta, happy end ou gêneros pré-determinados.

Produzia tantos planos quanto o ritmo vertiginoso de sua fala e a dicção desenfreada. Por meio de depoimentos de amigos, trechos de obras e imagens inéditas do seu velório e enterro, o documentarista Sílvio Tendler traça um mosaico desta personalidade desigual em "Glauber, o Filme: Labirinto do Brasil".

Ficamos sabendo, então, que "Deus e o Diabo na Terra do Sol", obra-prima de 1964, com cangaceiros filosóficos, mercenários sem escrúpulos e ingenuidade sertaneja sob o sol intenso do sertão foi concebido na flor dos seus 23 anos. Assombro maior: "Terra em Transe", com a nossa Glauce Rocha e Paulo Autran, alegoria sobre as tendêcias políticas de um país dividido, foi criado aos 27 anos.

Obra urgente e transloucada, premiada com a melhor direção em Cannes, com "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" e ofuscada com o canto do cisne fracassado no Festival de Veneza, o ainda incompreendido "Idade da Terra". Glauber só tinha 42 quando se foi, gerando comoção na intelectualidade. Tendler finalmente consegiu liberar as imagens que fez no féretro de Glauber, que aparece com um sorriso cínico no caixão, cercado de celebridades, como Arnaldo Jabor, João Ubaldo Ribeiro e Hugo Carvana.

É de emocionar o discurso de Darcy Ribeiro, à beira do túmulo, lembrando de um Glauber em prantos pela fome das crianças brasileiras. São de gargalhar as histórias de Ubaldo sobre um Glauber fanfarrão, consumidor contumaz de maconha e ácido lisérgico. Fica a saudade de quem não o conheceu e a reivindicação de que seja completada logo a caixa de DVD`s com a sua obra. Mínimo de respeito pelo esquecimento das novas gerações.



 Escrito por Maciel às 18h50
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   Rainha desvairada

Rita Lee entrou no palco imponente, cabelos de fogo. Escudada pelas guitarras da família, empunhadas pelo marido, Roberto de Carvalho e o filho, Beto Lee. Montada em uma estrutura rítmica invejável, com o baixo do ex-mutante Dadi e a bateria técnica de Cláudio Infante. Logo na abertura, "Jardins da Babilônia", para mostrar que a soberana pode andar fazendo discos melosos, mas gosta mesmo é deste tal de rock'n'roll. A canção com o mesmo nome, de Paulo Coelho, logo viria a promover peças de encaixe com outras, novas ou clássicas, em um show de estrutura pop.

Do novo disco, "Balacobaco", a fraca "Amor e Sexo" e a escatológica "Tudo Vira Bosta" contrastaram letras de um deslumbrado Arnaldo Jabor com uma incrível autoria de Moacir Franco (!!). Rita é puro requebrar de Jagger no palco. Ferina, a todo tempo referia-se aos campo-grandenses e lascou um Mato Grosso do Sul frisando a última palavra. Defendeu o nome Pantanal, com jeito de quem foi previamente doutrinada. Fez pose de careta, ao soltar um indefinido "não fumo há cinco anos" e destilou veneno ao apresentar-se como Luma de Oliveira e ao maridão como seu bombeiro.

Também atacou a Ordem dos Músicos. Berrou que os artistas são "fodidos e mal pagos no Brasil". Não é o seu caso, pois praticamente nunca saiu da mídia. Sucesso merecido pelo talento, pois a senhora continua se mantendo afinadíssima e anárquica. Nas baladas, como "Doce Vampiro", "Desculpe o Auê", "Mania de Você", "Caso Sério", "Ovelha Negra", o público cantou junto, sobre a regência de Rita, que emendou mímicas engraçadíssimas correspondentes às letras .

Nas mais aceleradas, como "Sabotagem (Top,Top)", "Nem Luxo, Nem Lixo", "A Próxima Vítima" e  "Lança Perfume", que, finalmente, levantou o público apático das mesas, pesaram quilos de tradição do rock brasuca. Também não faltou um cover inusitado dos Ramones, "I wanna be Sedated". Mas a maior parte do público, principalmente os que se espalhavam nas caras mesas, parece não ter entendido. Acomodados, sorveram como um uísque mais amargo aquelas sandices todas da titia. Os mais velhos, cansados de requebrar as cadeiras. Os mais novos, a espera de sucessos de novelas recentes. Só os hits incontestáveis tiveram reação homogênea.

Difícil ser uma hitmaker e sacar quais sucessos emendar para cativar um público de uma heterogeneidade intrigante. Mas Rita não está nem aí, divertiu-se com a sua fama. No fim, contentamento geral. A rainha parte, abraçada com a família. O rock'n'roll já não é mais o mesmo.         



 Escrito por Maciel às 16h01
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