| |
Páginas sôfregas de suspense
Sempre gostei de Alfred Hitchcock desde aqueles festivais da Globo Corujão adentro, com dublagem terrível. Depois, quanto ganhei o primeiro VHS, não deixava um na prateleira. Na era do DVD, o meu prazer de estudar a obra do cineasta inglês que se deu tão bem nos EUA se tornou maior, devido à qualidade de som e imagem.
Acabo de ler o documento mais completo sobre a obra Hitch, na verdade uma longa entrevista de 50 horas concedida ao cineasta e ex-menino de rua francês, François Trufaut. "Hitchcock/Trufaut", livro que reúne este depoimento minucioso, o diálogo inteligente entre dois cineastas capitais, pode ser encontrado a preços meio salgados nas nossas livrarias da capital. Mas vale a pena para os cinéfilos, não só para os fãs do autor de "Interlúdio", "Rope" (ou "Festim Diabólico") e "Vertigo" (ou, "Um Corpo que Cai").
Riquíssimo na documentação fotográfica, esta edição permite que acompanhemos com minúcias o processo de criação do diretor, que tratava os seus atores com dureza, desenhava previamente cada plano do seus filmes para que nada saísse fora do planejado e era cercado de mitos e lendas. Quando procurou o cineasta inglês para propor uma longa entrevista na qual ele falaria com detalhes de todas as suas películas, desde a fase inglesa, com filmes mudos, Trufaut considerava esta obra necessária, pois a crítica insistia em enxergar nas obras do ártifice do suspense no cinema apenas o banal, comercial.
Puro preconceito com a habilidade de Hitch, poucas vezes revivida por outro artista, de conciliar uma obra absolutamente autoral com concessões de extrema paixão por parte de sua platéia. Hitchcock confere, ao longo do livro, um depoimento que surpreende pela riqueza de detalhes e paixão a qual ele dedicava às suas criações.
Também se auto-critica pra caramba, principalmente com "Disque M Para Matar", "Cortina Rasgada" e "Sob o Signo de Capricórnio", que considera obras menores. Mas destila emoção quando explica que "Janela Indiscreta" não era apenas um filme sobre um fotógrafo voyeur, mas, sim, uma reflexão sobre o próprio cinema. Ou ao contar que, em "Psicose", na imitadíssima cena do chuveiro, posicionou a câmera de 70 formas diferentes, preferindo rodar o filme em preto-e-branco para não chocar as platéias com o sangue que esguichava aos borbotões da personagem principal, morta logo no início.
Trufaut, apesar de amar a obra do diretor, também é bastante crítico e entra em embate com o cineasta em alguns momentos cruciais. Em um deles, clássico, o diretor britânico reclama: "Mas você quer que eu faça filmes de arte"? Em outro, com a maior tranqüilidade, relata que, apesar de viver anos com a mesma mulher, é abstêmio, celibatário. Por isso suas loiras gélidas, como Grace Kelly, por quem nutria paixão platônica. Bom, vamos abrir aqui uma enquete? Você gosta do Hitch? Qual é o melhor e o pior filme na sua opinião?
Escrito por Maciel às 00h26
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
Baden Powell sempre alerta
 Chegou na quinta-feira a caixa do Baden Powell. O cara não tem nada a ver com criador do escotismo, como até eu me confundia quando era criança. É brasileiríssimo, tudo culpa do pai sempre alerta. Na verdade, Baden é um dos maiores violonistas do mundo, reconhecido na Europa e no Japão. A caixa traz treze CDs com uma qualidade estupenda de remasterização, pois recuperam gravações originais da década de 1960 e 1970. Não podia deixar de começar com "Os Afro-Sambas", de 1966, obra conceitual sobre o candomblé e o sentimento humano resultado de três meses de concentração do poeta e do violonista.
Baden havia se embrenhado pelos terreiros da Bahia, o que emprestou ao seu violão uma sonoridade singular. Vinícius, fascinado com a mística do culto afro, concebeu letras inspiradíssimas. "Canto de Ossanha", (...o homem que diz dou não dá...), Bocochê (...menina bonita onde é que cê vai...) e Canto de Xangô (...salve, Xangô, meu rei senhor...) exigem estado de contrição e respeito. Saindo do temático, mergulhei no fascinante mundo de acordes e ausência de letras dos demais discos, quase todos instrumentais.
"Tempo Feliz" (1966), reúne um Baden virtuoso e modesto, temperando uma levada jazzística e acompanhado pelo grande gaitista Maurício Einhorn. Aliás, os discos de parcerias não param por aí e são os grandes atrativos da caixa. Em "Baden Powell swings whith Jimmy Pratt", Badeco está acompanhado do notório baterista norte-americano e produz versões ainda frescas de "Samba de Uma Nota Só" e "Coisa nº 1 e nº2", de Moacir Santos. Também curiosíssimo o registro da parceria com o letrista Paulo César Pinheiro em "Os Cantores da Lapinha" (1970).
A química que Baden, um músico instrumental, transmitia aos seus parceiros letristas quando abria a suas redondilhas para os versos, era e permanece única. Como negar a força das canções "Aviso aos Navegantes" (...Esse ano vai sobrar um/o amor morreu...), "Vou deitar e Rolar (Quaquaráquaquá)" (...você já entrou na de voltar/agora fica na tua/ que é melhor ficar...) e "Lapinha" (...quando eu morrer/ me enterrem na Lapinha/Calça-culote/Paletó-almofadinha", todas concebidas pelo poeta Paulinho? Descobri, no quinto disco, que tudo aquilo transmitia uma alegria contagiante, opinião compartilhada pelas pessoas que compareceram a uma festa que promovemos ontem para conceder a outros ouvidos a audição desta raridade.
 Entre os discos instrumentais da caixa, destaco, de cara, "Baden Powell à Vontade" (1967), com as famosas "Garota de Ipanema", "Berimbau", "O Astronauta", "Samba do Avião", "Saudade da Bahia". Os dedos de Powell demonstram tanta intimidade com as cordas que é impossível até para leigos não perceber que aquele momento é de uma comunhão com o espírito coletivo da arte. Dois discos ao vivo da caixa, um em que Baden é acompanhado pelo trio do pianista Oscar Castro Neves e outro, em parceria com o clássico grupo "Originais do Samba", estão com uma qualidade sonora invejável, apesar de terem sido gravados, respectivamente, em 1966 e 1968. Aquecido pelos aplausos, aqui Baden desafia o limite da velocidade nas cordas sem derrapar na melodia, azeitadíssima por uma cozinha de baixo e bateria sempre em ebulição. Falar tanto e não explicar tudo é a sensação que ouvir a música de Banden Powell me provoca.
Escrito por Maciel às 14h17
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
Professor ácido
Como um filme construído em cima de uma estrutura tradicional de comédia, como "Escola do Rock" pode ser uma diversão descompromissada e inteligente? Todos os clichês estão ali, devidamente dispostos. Roqueiro rejeitado de sua banda passa a perna em amigo e assume, em seu lugar, a vaga de docente em uma instituição escolar caretíssima.
Temos a diretora repressiva, o aluno rebelde, os estudantes CDF, a idéia do levantamento da auto-estima, básica em filmes deste naipe. Esperava, então, uma saraivada de piadas bestas e um final convencional, com os alunos transformados em uma banda de rock setentista, com produção de luz, fumacinha e tudo. Mote legal, mas já aplicado em outras tantas situações.
Mas me surpreendi com o desempenho do ator principal, muito engraçado como o típico roqueiro e seus cacoetes. Também com o contraste de alunos educados da música erudita e posicionados como guitarrista exibicionista, tecladista doidão e baterista transloucado. O segredo desta comédia para fugir do lugar comum foi apostar em um roteiro cheio de referências, que diverte, a bem da verdade, bem mais os iniciados em rock 60 e 70.
Não costumo gostar das comédias americanas, em geral centradas em situações de grande indigência criativa, a não ser Allen, Brooks, os irmãos Zucker e Mayers. "Escola do Rock" é bom para o domingo, para substituir o Faustão e outros descaminhos da cultura.
Escrito por Maciel às 11h21
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
Quem matou Laura Palmer?
O DVD apresenta como uma das opções mais interessantes a possibilidade de assistir uma temporada inteira de um seriado de televisão sem o intervalo comercial ou de dias separando os episódios. Enfrentei uma maratona David Lynch encarando os sete primeiros episódios do clássico produzido para a rede ABC em 1988, "Twin Peaks". Você deve se lembrar que passou na Globo e na Record, mas dublado e com algumas cenas cortadas.
O triste é que a série tem 29 episódios e, ao final dos quatro DVDs, riquíssimos em extras, fica a vontade de assistir mais. No entanto, dizem os críticos que a primeira temporada é insuperável em termos de inventividade no roteiro (Lynch e Mark Foster), fotografia, direção dos atores e muita coisa cabulosa.
Em uma pacata cidade do interior dos EUA, menina de 17 anos aparece morta, nua, enrolada em um saco plástico, jogada no rio. Trata-se da famosa Laura Palmer, que parece vender uma imagem de puritana mas esconde uma vida sexual ativíssima além de consumo exacerbado de cocaína e barbitúricos. Aliás, quando um perspicaz detetiva do FBI é chamado para desvendar a relação entre este assassinato e o espancamento de uma garota que está em coma, a aura de puritanismo da cidade começa a ser descortinada.
Traições, figuras doentias e místicas, como o homem sem braço ou o espírito violentador da floresta, meninas transloucadas, jovens panacas e policiais despreparados. Lidando com esta "fauna", Lynch presenteou os telespectadores com uma série intrincada e detalhista, cheia de surpresas. Enche a tela com uma fotografia exuberante e evita o puro e simples jogo de closes, característico da televisão. Com a ajuda de um roteiro impecável, cria uma atmosfera de constante medo e segredo, aliado a um forte misticismo.
O sonho do anão, do qual você deve se lembrar, é o ponto alto. Em uma sala com toda vermelha e com três sofás, o detetive do FBI encontra-se com uma prima de Laura Palmer e o anão encanado. Ele sai dançando a dado momento depois de encher a cabeça do tira de enigmas curiosos, expostos de trás para diante. Mais Lynch ("Veludo Azul", "Homem Elefante", "Cidade dos Sonhos"), impossível. Vale a pena perder 450 minutos da sua vida para assistir uma experiência estética televisiva com cerebelo.
Escrito por Maciel às 14h13
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
Éden
No Vale do Canaã, Bodoquena, o tempo se debruça nas águas para relaxar. Espaço pouco explorado, devido ao difícil acesso, o vale é o local onde escorre a maior cachoeira de Mato Grosso do Sul, a Boca da Onça. Esta, no entanto, foi cercada por um hotel milionário que cobra preços altíssimos para se contemplar o que, por direito, é da população. Mas que os abastados gastem à vontade acima do paredão.
É embaixo, na água límpida, onde se enxergam peixes nadando com tranqüilidade e as corredeiras mantém a água em constante movimento, que a visão e as sensações são mais particularmente deslumbrantes. Fomos em dois casais e uma criança visitar este local no dia 12. A alegria incontida de Clarice, 4 anos, no colo do pai, Leonardo, desbravando o rio com pedras que exigem encaixe atento dos pés, é o resumo da alegria de viver da humanidade.
E de esperança também. Bodoquena ainda não foi tocada pela máquina mercante do turismo desenfreado e de lucro. O Vale do Canaã está localizado, por ironia, em uma área onde a terra pouco vinga e sem-terras foram assentados. Por isso, a quantidade absurda de porteiras, 22, dividindo os minifúndios, nos 24 quilômetros que separam o centro da cidade do território das águas esverdeadas.
A Boca da Onça espumante é fácilmente divisada no caminho de mais alguns metros dentro da mata para chegar às corredeiras. Lá, passamos uma tarde daquelas que nos faz ter vontade de botar nossa alma urbana na mala e deixar de ser sedentário. Migrar, como aquelas águas.
Escrito por Maciel às 20h13
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
Ronald, seu palhaço
"Dois hamburguers, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim". Oito quilos a mais. Fígado no mesmo estado de Nicolas Cage em "Despedida em Las Vegas". Colesterol e açúcar em níveis absurdos. Fraco desempenho sexual.
Este é o resultado da aventura suicida de comer um mês inteiro apenas produtos do Mac Donalds, promovida pelo cineasta Morgan Spurlock na produção "Super Size Me- A dieta do Palhaço". O maluco se obrigou a fazer três refeições por dia, variando o amplo cardápio da rede de sanduíches, que, só em New York, tem 93 lojas. Chamou clínico geral e nutricionista para acompanhar a empreitada, todos embasbacados no meio do caminho.
A namorada vegetariana, além da preocupação de ficar viúva antes de se casar, reclama muito do desempenho do rapaz na cama no período da experiência. O curioso é que o cineasta procura manter uma visão sistêmica da situação, mostrando que as crianças norte-americanas se empanturram de batata-frita nas escolas. Nem sequer o governo colabora, enviando merenda escolar devidamente enlatada e conservada.
Portanto, o problema não é só do Mac Donalds e o nefasto palhaço Ronald. É, sim, da cultura alimentícia de uma potência de cardíacos e obesos angustiados. Bem, nosso arroz, feijão, bife e salada era o prato mais equilibrado do mundo antes da inflação impedir que muitos destes ítens estejam presentes na mesa do brasileiro. Devo dizer que Áquila, Gugu e Canil tão cedo não vão contar com o meu telefonema ou minha presença. Argg!
Escrito por Maciel às 15h43
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
Realidade implodida
O que diferencia o documentário "Prisioneiro da Grade de Ferro" de todas as reportagens ou filmes baseados em fatos reais sobre o Carandiru? Desta vez, a câmera esteve na mão dos detentos. Não importa a qualidade das imagens, muitas, aliás, péssimas, mas, sim, a idéia original e a liberdade realmente manifestada pelos presos.
Que repórter conseguiria filmar abertamente um grupo de presos preparando papelotes enrolados de R$ 1,00 de maconha ou crack, com direito a depoimento moral do traficante interno? Ou retratar a noite de angústia e solidão de uma dupla de presos, em sua versão íntima, olhando os fogos de artifício ao longe por meio da grade do terceiro andar?
É claro que o diretor selecionou, filtrou e montou o filme de forma que ele demonstrasse uma coesão estética, mas o que importa é a opinião longe dos clichês dos detentos. Destaque para o poeta louco do presídio, captado em uma bela cena no banho de sol, delirando, rodopiando, câmera nervosa no ritmo. Sensível, da mesma forma, o trabalho dos artistas internos, as noções de solidariedade.
Em suma, uma preocupação de, ao mesmo tempo em que mostra o inferno, promover uma auto-análise otimista. Uma vontade incontrolável de se comunicar quando se amordaça a boca com pano sujo. No início, acompanhamos as imagens da implosão do maior presídio da América Latina ao contrário, ou seja, com toda a estrutura voltando ao normal. Como se não quisesse ser dissipada da nossa memória. Presente e crua.
Escrito por Maciel às 16h36
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
|
|
|
|
|