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Khouri incompreendido
O diretor de cinema Walter Hugo Khouri (foto) sempre mereceu uma revisão crítica de sua obra. Contemporâneo do Cinema Novo, tomou muita porrada da crítica e de colegas de profissão como Glauber Rocha por não se embrenhar no sertão ou levar a câmera para a favela. Enfim, por supostamente não abordar temas sociais em suas películas em um momento de forte ideologia utópica.
Khouri preferia mergulhar na alma da classe média brasileira, mostrar gente bem vestida e trajada mas com um vazio imenso no peito. Sem falar no cuidado estético com a fotografia e as musas que chamava para contracenar com o seu eterno personagem e alter-ego Marcelo. Assisti com atenção o meu primeiro Khouri neste final de semana. "As Amorosas", 1968, com um brilhante Paulo José no papel do eterno Marcelo, que já foi vivido também, em outros filmes, por Tarcício Meira, Antônio Fagundes e Nuno Leal Maia.
Fugindo da política todo o tempo, o personagem principal quer mais é viver intensamente com as mulheres, em busca do preenchimento de uma ausência inexplicável no seu íntimo. Detalhe curioso é que a trilha sonora psicodelíssima é comandada pelo maestro Rogério Duprat, que estava irmanado com os tropicalistas Gil e Caetano na época.
No filme, quem executa o pano de fundo muitas vezes pesado, com guitarras e bateria surpreendentemente modernos são os Mutantes. Isso mesmo, Rita, com 22, Arnaldo com 20 e Serginho com 18 surgem, inclusive, em uma longa cena na qual Paulo José está chavecando intelectualmente a enésima mina, em um bar estiloso. Rita Lee aparece em um belo close, enquanto os irmãos Baptista viajam na sonoridade. Imagens raríssimas.
Preste atenção no climax, quando um grupo de homossexuais liderado por um sensacional Stênio Garcia resolve dar uma surra em nosso herói. A sinopse parece de pornochanchada, mas esta era a jogada de Walter Hugo. Não há nada gratuito. Inclusive as cenas de sexo, em que não podia aparecer nem peito nem bunda são uma aula de estética e erotismo contido.
Talvez você se lembre do diretor, pois ele é o responsável por "Amor, Estranho Amor", filme que a rainha dos baixinhos, Xuxa, mandou tirar do mercado simplesmente porque aparece sendo bolinada por um garotinho, no papel de uma puta de luxo. Parece também apelação, mas este filme não pode ficar fora de mercado por um capricho de censura, é também uma preciosidade do cinema intimista brasileiro.
Khouri morreu ano passado ressentido com a crítica, que o acusava de ser sueco demais, Bergman pra caramba. Ele confessava que a sua grande influência era Antonioni, diretor italiano conhecido como o cineasta da incomunicabilidade. Como prova "As Amorosas", com longas cenas de silêncio e closes em um olhar enigmático de Paulo José. Saia do convencional do Intercine especial cinema brasileiro.
Escrito por Maciel às 22h19
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Cinema (sempre) Novo
A princípio, pelo nome, o livro parece um chute de bico de chuteira no saco: "O Processo do Cinema Novo". Mas, pelo autor, Alex Viany, o cara que trouxe o neo-realismo para o Brasil em 1952, com o hoje desaparecido "Agulha no Palheiro", resolvi dar uma chance.
Desvairado, estou agora devorando as derradeiras 50 das 500 páginas deste documento que agora considero essencial. Trata-se de uma série de artigos escritos entre 1962 e 1983, resultado do interesse de Viany em recolher o depoimento de então jovens cineastas como Glauber Rocha (foto), Nelson Pereira dos Santos, Paulo César Saraceni, Cacá Diegues e até Arnaldo Jabor.
O resultado é delicioso, já que a maioria dos textos é em forma de depoimentos, detectando o calor da hora. Cinema Novo foi um movimento brasileiro que reuniu cineastas com a proposta da "idéia na cabeça e a câmera na mão". Ou seja, quebrar o esquema de atores famosos, chanchadas, musicais, para tentar focar a realidade brasileira em filmes feitos com pouca grana.
"Deus e o Diabo na Terra do Sol", de um Glauber de apenas 25 anos é festejado como o marco inicial, ao lado de "Vidas Secas", adaptação da obra de Graciliano Ramos feita pelo mestre Nelson Pereira. Ambos são de 1964, nas portas do governo militar. Durante as filmagens do seu filme, Glauber percorreu o sertão baiano para buscar locações viáveis com o intuito de ambientar um épico com Corisco, um vaqueiro e sua mulher, um matador de cangaçeiros, o beato e toda sorte de personagens reais, como rezadeiras.
No capítulo mais interessante do livro, Glauber defende a sua obra, um sucesso de crítica, com um grupo de cineastas e emite opiniões contundentes sobre a capacidade de produzir arte no subdesenvolvimento. Já previa o sufoco do governo militar, como todos ali presentes.
O curioso é que os depoimentos, individuais ou em forma de discussão conjunta, foram recolhidos ao longo das décadas de 1960 e 1970, mostrando a desilusão e o amadurecimento daqueles cineastas tão audazes e criativos com as forças nefastas de um governo que ceifava a cultura.
Os últimos capítulos são de 1983, quando Viany recolheu entrevistas individuais com todos os realizadores que aparecem ao longo das páginas anteriores, em épocas diferentes. O livro é uma grande aula sobre um Brasil que criou, na marra, uma vocação para o cinema, mesmo com todo território hostil.
Escrito por Maciel às 19h07
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Bicicletas surreais
Desenhos animados tem o feitiço de botar o nosso espírito racional para dormir. A produção "Bicicletas de Belleville" (Les Triplettes de Belleville), com seus traços inusitados, personagens cativantes e uma mensagem de conteúdo humano, me intrigou. De tal forma, que, até agora continuo buscando significados escondidos naquelas cenas.
Ciclista submete-se a treinamento intenso e surreal para participar da famosa competição ciclística "Tour de France". Sempre sob a batuta de sua severa e engraçadíssima avó e um dos cães mais fiéis aos nossos amigos caninos dentre os que o cinema de animação já criou. Este último, aliás, rende risadas com sua fixação por latir todas as vezes que o trem passa na janela da pobre casa onde mora o competidor. Não convém contar mais desta história cheia de reviravoltas e de necessária surpresa.
Mas o encantamento vem do clima dos traços desproporcionais dos corpos dos personagens (pernas musculosas e barriga exígua do ciclista, por exemplo). Ou da reconstituição de uma fictícia Belleville, mistura de Montreal, Paris e New York. Quase mudo e com uma trilha cativante, o desenho nos faz lembrar o quanto a fala no cinema tirou muito de sua espontaneidade. E quanto o cinema, só com imagens, consegue transmitir uma mensagem perfeitamente compreensível e profunda.
Destaque também para as três irmãs gêmeas improvisadoras musicais, que lembram muito as nossas saudoras artistas do rádio, hoje esquecidas. Para não deixar passar os detalhes, é preciso rever. Sem a surpresa da história assistida pela primeira vez, sobra tempo para atentar-se aos detalhes. E como existem...
Escrito por Maciel às 23h38
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Pira Lenta (para meu irmão, Andreleza)
Piraputanga é um peixe actinopterígio, caraciforme, caracídio, que atinge tamanho considerável, define o dicionário sobre minha mesa. Para mim, é mais simples. Cidade dos anjos, amizade, confraternização. Pequeno vilarejo de tempo estático, mudo.
Rio Aquidauana barrento, vazão diferente por demais da força de outrora. Mistérios acumulados como em todas águas escuras. Ali, no sítio do pai André e do pai Titó vivi mais um feriado de grudar como visgo na memória. Hoje, estamos executivos, apesar da barraca. Casa, fogão, churrasco, cerveja, som, luz elétrica.
Mas me lembro das primeiras empreitadas por aquelas bandas, quando cheguei de Corumbá, lá se vão 11 anos. Mochila nas costas, dedão na estrada, caronas inesperadas, cabelos e barba em bom tamanho e desalinho. Lagartear na beira da praia do Dinho, sem barraca, ededron carniça para cobrir-se inteiro na noite de frio e proteger-se do orvalho da manhã.
Dinheiro? Hoje somos milionários, compramos breja no barzinho. Na época, onze quilômetros a pé a pinga turbinava. Mas muito permanece inalterado daqueles tempos. A amizade sincera da mesma turma que melhorou de vida. O repertório mais vasto, porém a mesma hipnose da viola da noite.
Aquela preguiça que doma o corpo na estufa do tempo. A morraria imponente, desafiando escaladas nunca concretizadas. O trem invadindo como fantasma a madrugada. Andreleza, meu irmão. Tu partes para outros lugares, de água salgada e cultura. Mas Pira mantém a sua magia tosca inalterada, como na foto que fizestes. Saudade é para se viver.
Escrito por Maciel às 15h40
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Focando Friedman
Documentários procuram relatar a realidade da forma mais verídica possível."Na Captura dos Friedmans", do diretor Andrew Jarecki mexeu com os meus conceitos de jornalismo pela sua proximidade inédita com o verídico. Pai de família, professor renomado e pioneiro no ensino particular de informática no porão de sua casa entra em uma ciranda de pesadelo quando é acusado de receber pelo correio revistas de meninos nus e, pior, subjugar supostamente os seus alunos a sessões de pedofilia.
O filho mais novo, que auxilia os pais nas aulas, também foi apontado como cúmplice. Até aí, um documentário curioso, com um mote de suspeita sobre as acusações, já que o pai é um sujeito placido, calmo, que assume gostar de ler revistas de meninos nus mas nega ter cometido as atrocidades relatadas. O diferencial é que a família filmava tudo, desde os tradicionais vídeos alegres de churrascos, festas e férias, até mesmo...a sua degradação.
Isso mesmo, em meio ao longo processo, pressão da mídia, crianças sendo coagidas a falar o que não viram, o filho mais velho registra o impacto da situação sobre a família outrora de uma felicidade invejável. As brigas, dúvidas, ciúmes, desfilam, assim, como um reality show macabro, o material dos sonhos de todo cineasta que se arvora pelo gênero documentário.
O curioso é que o diretor não toma partido e deixa a gente com uma dúvida danada sobre a decisão da Justiça. Tenta, antes, ser imparcial, ouvindo vários meninos, hoje adultos, que juram não ter visto nada de errado nas aulas do professor Friedman. Aqueles que o acusam conferem depoimentos protegidos pelo anonimato. "Na Captura dos Friedmans" serve como drama familiar e filme de tribunal e apresenta um enredo bem mais interessante que boa parte das farsas hollywoodianas atuais.
Escrito por Maciel às 18h34
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Zaratrusta insano
Júlio Bressane é um cineasta curioso. Sempre à margem dos renascimentos do cinema nacional. Fiel à uma estética autoral, toda própria. Com "O Anjo Nasceu", em 1969, subverteu estética e forma, fórmula repetida no mais comentado que assistido "Matou a Família e Foi ao Cinema" (não confundir com o remake horrível feito na década de 1980).
Agora, em "Dias de Nietzsche em Turim", que retrata o período em que o filósofo alemão viveu na cidade italiana, entre abril de 1888 e janeiro de 1889, Bressane está impecável. Fotografia expressiva, inventividade nos movimentos de câmera, descompromisso total com o fio condutor mínimo de uma história.
O tempo inteiro acompanhamos Nietzsche caminhando pelas ruas, observando prédios antigos, o por-do-sol, comprando uvas, filosofando, enfim. Em off, a narrativa envolve, com os pensamentos do filósofo, pincelados de sua obra. Bressane instituiu no Brasil o que é chamado por muitos críticos de cinema-poesia. Ou seja, recortes do real, frames carregados de sentimento e uma narrativa encadeada com um texto absorvente.
Confesso que não li tanto Nietzsche (outro mais comentado do que conhecido), mas pude, através do filme, apaixonar-me pelas suas idéias sobre arte, amor, guerra, ser humano. Há inclusive uma licença poética muito curiosa, quando enxergamos o filósofo escrevendo uma carta para Hitler. "Não suporto ver o meu Zaratrusta na sua boca e de nenhum anti-semita", vocifera. É óbvio que ambos não conviveram em vida, pois o autor de "Além do Bem e do Mal" morreu em 1900, na alvorada de um novo século.
O ator Fernando Eiras, com um bigodão fiel, mas que beira o cômico, confere dramaticidade a um personagem vaidoso e de uma ironia atroz. Curiosíssima a cena em que, declarando o seu amor supremo ao Deus grego da putaria, Dionísio, dança, nu, frontal, com uma máscara representativa. Para quem espera um documentário ou algo parecido, desista. São fragmentos de uma vasta obra, de um pensamento inquieto, por vezes contraditório. E é cinema puro, sim senhor. Poemão. Tem em DVD na MB. 
Escrito por Maciel às 14h39
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