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O Aviador e Menina de Ouro
Já é previsível que um dos dois vai ganhar o Oscar. Martin Scorcese, provavelmente, com o seu "O Aviador". Mas Clint Eastwood, com "Menina de Ouro", acaba de conceber uma de suas obras mais instigantes, embora muito triste.
"O Aviador", segunda parceria do ator Leonardo Di Caprio com o diretor encanado de 1,60, é um filmaço. Grandiosas cenas de aviação, ideais para serem saboreadas em uma sala de cinema com som no talo e telona bem definida. Aqueles passeios de câmera incríveis de Scorcese, com vários personagens preenchendo o quadro também estão lá.
O ritmo vertiginoso da primeira hora e meia perde o rebolado na última hora de projeção. É quando o personagem de Caprio, Hughes, um lendário e perseguido criador de aviões e sutiãs, além de ter deixado para o cinema "Scarface" original, passa a pirar. A crítica meteu o pau no filme por causa da vozinha fina do moço e o envelhecimento difícil para um ator com cara de moleque.
Mas Caprio é um bom ator, confere o mais importante para Hughes: ansiedade e desespero. Angústia e coragem. Mas, na vida real, diz a biografia, o cidadão era muito diferente. Não catava só Ava Gardner, como aparece na película. Também dava para Cary Grant e outras estrelas.
Era anticomunista, racista e meio facistóide. Tudo isso é escondido por Scorcese, uma falha grave. Mas o filme vale pela mão firme de um diretor clássico, que sabe prender o espectador em uma teia forte composta por roteiro, fotografia estupenda (repare o pipocar de flashs das lentes das câmeras fotográficas, que primor) e direção de atores irrepreensível.
E o velho Clint? Aqui ele parece cansado mesmo, interpretando um experiente treinador de boxeadores que, após muita aporrinhação, decide aceitar o pedido insistente de uma garota (a mesma mina do "Boys Dont Cry") para treiná-lo. O UOL e a "Folha de São Paulo" já estragaram o final do filme, a grande virada que diferencia esta produção de tantas outras que tratam do mundo do boxe.
Eu não vou atrapalhar nada, só dizer que Morgan Freeman continua magistral,como um boxeador cego de um olho, astuto, mas decadente. Sua voz rouca na narrativa em off valoriza este tipo de recurso, em geral dispensável e frustante. Este filme é bem mais acadêmico, sem movimentos inusitados de câmera ou fotografia inovadora. Mas tem um roteiro muito bem engendrado, que dá um nó de escoteiro no peito.
Escrito por Maciel às 14h46
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Petê e Noô - Alexandre Maciel
Petê e Noô eram os nomes dos meus amigos imaginários. Dois anos de idade, criança séria. Faltavam ainda mais um par de anos para a chegada do irmão. Não me lembro deles, descrição, fala, atitude, nada. Mas Petê e Noô resistem em minha memória pelo relato e descrição feito aos meus pais. Você dizia que Petê era o malvado, prendia gente na garrafa.
E Noô? Mais quieto, misterioso, pelo jeito falei pouco dele. Me parece mais amigável, nome com ecos indígenas, como um espírito bom. Às vezes forço a memória em um esforço vão. Tentar voltar à inconsciência, à penumbra daquela idade. Será que em uma terapia de regressão os dois ressurgiriam, imponentes?
Petê, mais agressivo do que nunca, olhar sórdido, símbolo de medo, repressão. Noô musical, plácido, com olhar lânguido de quem entende adulto esquecido de seus mitos infantis. Devia ter mais amigos imaginários. Uma festa de arromba no id de criança circunspecta. Mas foram substituídos pelos meus traumas.
Talvez repousem em algum recanto, despertem de novo quando voltar à infância, na velhice. Petê não me perdoará o esquecimento, rancoroso, garrafa em punho. Noô vai sorrir. Talvez cantar algum acalanto. Devia ser proibido esquecer os diletos companheiros imaginários.
Escrito por Maciel às 12h02
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Tia da Geladeira - Alexandre Maciel
Carlos deixa a porta da casa de dois quartos, sala, cozinha, área de serviço encostada para esperar o motoqueiro na entrada do condomínio. Lugar tosco aquele, casas velhas e predinhos insalubres. Região horrível, próxima a uma rodoviária decadente, ao lado de hotel mequetrefe.
O moto-táxi chega com a mercadoria. Seguem pelo corredor de casas das quais a última era a de Carlos. O trabalhador disfarçado saca da pacoteira e corta a quantidade desejada. Faz um telefonema para a mulher. Tudo bem, estou voltando, amor. Cumprimentos.
Carlos veste roupa, sapato, perfuma-se. Já está atrasado para a apresentação dos "Parlapatões, Patifes e Trapalhões" na feira central, bom estirão a pé para encontrar a nova namorada. Dá para bolar um antes e acender, é claro. No quarto, deita-se na cama, pensa um pouco na vida, na agrura da profissão. Elos de fumaça no ar, brincadeira antiga. Mas já não tem tempo, pode se atrasar.
Segue fumando até a cozinha escura, dando as últimas baforadas. A pastor belga está silenciosa, atrás da porta da área de serviço. Carlos abre a geladeira, prende o último, tomar uma água e partir. A luz interna ilumina o canto esquerdo e lá está a tia. Assustada, sentada encostada na parede, sobre uma mala Adidas cheia. Coração dispara, como dois animais que se assustam ao se encontrar.
"Quem é você? Como entrou aqui??", reação incontrolada. "Moço, me ajuda, meu marido quer me matar". Ela se levanta, vai seguindo com a mala, andando de costas, com medo, até a porta de entrada da casa. "Não me manda embora não, ele quer me pegar". Como agir, THC bombando na mente? Alucinação, realidade?
"Olha, se você quer que eu chame a polícia eu chamo, mas vá embora daqui", voz nervosa. Carlos não se lembra de tê-la tocado, sentido seu braço gordo. Apenas aquele rosto assustado. Abre a porta. Nada de polícia. "Vai embora, pelo amor de Deus". A mulher sai, mala Adidas nos braços. Carlos fecha a porta atrás de si, coração descompassado. Passados alguns minutos, olha de novo o corredor.
Tudo quieto. No hotel do lado, nem sinal de movimento, alteração. Marido nenhum por perto. Ninguém viu mulher alguma. Nem o cachorro, tão barulhento, a farejou pelas frestas da porta. Inodora, a tia da geladeira? Impalpável? Entidade, presença? Carlos não sabe.
Só imagina se a tivesse trancado na casa, o que aconteceria se não a tivesse visto. A chegada de madrugada, meio alto, a tia deitada na cama. Credo. Melhor ir embora. Há uma história boa para contar. Rir um pouco na feira, com a namorada e amigos, para relaxar.
Escrito por Maciel às 16h19
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Discos Preferidos 9 - "Luz" - Djavan - 1982
Djavan foi depurando o seu estilo com o tempo. Dos sambas animadinhos ao suingue francamente alegre. Cada vez mais jazzista, foi impondo uma marca autoral. Gosto de vários, mas fico com a criatividade e intensidade musical de "Luz".
O alagoano encontra, neste disco, a sua fórmula, sem meio termo, alternando metais em brasa e cozinha ritmada com momentos de intimismo lírico. "Pétala", nome bastante apropriado para a delicadeza desta canção, já nasceu clássica. "O meu amor reluz que nem riqueza/ prata do meu destino" e "por ser exato/o amor não cabe em si" são versos que já embalaram muitas histórias tocantes de amor.
Letrista que adora o malabarismo das palavras, Djavan não deixa por menos na faixa título do disco, concebendo as imagens do "... burro a canga/ na menina a tanga/ o verde do mar é um / verde num tom quase azul / do infinito ao zoom..." Para sair requebrando como palmeiras ao vento. Sem preconceitos, o músico trata de uma amizade masculina (...dois homens apaixonados/ e sentir a alegria de ver/ a mão do prazer acenando pra gente..."), embalada em um pungente lirismo em "Nobreza".
O balanço retoma o comando com "Capim", outra acobracia poética, que desfila versos como "mãe d'água saia um pouquinho deste seu leito ninho/ que eu tenho um carinho para lhe fazer..." ou "...mangas do Pará/Pitombeira dá/ Borborema/ A ema gemeu/ no tronco do Juremá...".
"Sina", a canção seguinte, dispensa apresentações, ao comparar pai e mãe com ouro de mina e tratar do som açoitando o ar ou da pura beleza que "jazz". O refrão também é cotadíssimo nas rodinhas de violão: "o luar, estrela do mar/ o sol e dom / quiçá / um dia a fúria deste front...".
Com a ilustre participação da gaita de Stevie Wonder, Djavan arrasa novamente com a não menos clássica "Samurai". Derrama-se em "ai, tanto querer/ cabe em meu coração" e constata a certeza de que não é possível lutar contra o poder do amor e, portanto, é hora de "cair nos pés do vencedor/ para ser um serviçal do samurai".
O canto derramado retorna em "Açaí", outro grande sucesso, seguida das menos conhecidas "Esfinge" e "Minha Irmã". É marcante a interpretação de Djavan ressaltando a solidão, de manhã e a poeira que toma assento, rajada de vento, dente de tubarão. "Luz" é um daqueles discos que animam uma festa em algum canto de nosso íntimo.
Escrito por Maciel às 18h19
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Discos Preferidos 8- Tom Jobim e Nova Banda - "Passarim" - 1987
Certa vez encontrei um músico uruguaio em uma praia de Salvador. Ele me contou que foi fazer uma jam nos EUA com músicos cubanos e norte-americanos e ficaram na dúvida sobre o tema base. Jazz americano ou cubano? Foi quando o cidadão propôs: vamos tocar Tom Jobim e o improviso rolou solto, unificando nações.
Esta história é perfeita para exemplificar a força carismática do talento deste maestro, praticamente uma unanimidade mundial. Com simplicidade, o músico construía riquezas harmônicas sempre melodicamente surpreendentes. Resolvi entre tantos discos instrumentais de Jobim que adoro, fechar questão com um álbum de canções, talvez o mais acessível de sua carreira: "Passarim".
Acompanhado pelo coral feminino incrível e pela flauta de Danilo Caymmi, além de músicos de renome, Jobim está bem a vontade, no outono de sua carreira. De cara, a canção tema da minissérie "O Tempo e o Vento", chamada "Passarim", com o famoso "la,laiá,lalaiá,lalaiá...passarim quis pousar, não deu, voou...". Melodia envolvente, cuja letra trata do drible de um passarinho em um tiro em comparação com uma situação de ausência de felicidade no amor (...me diz o que eu faço com a paixão/ que me devora o coração...).
A temática ambiental, cara a muitas de suas criações, está presente, da mesma forma, em "Borzeguim". Esta é para ouvir e viajar como o pássaro da canção que "abre as asas ao vento", as acrobacias vocais mântricas das meninas do coral e o ritmo irresistível. Na letra, um pedido encarecido para que o homem, "coisa ruim", deixe o "tatu bola no lugar", "a anta atravessar o ribeirão" e o "índio vivo nu".
"Bebel", apelido da minha mãe, é uma delicada declaração de amor das diversas que Tom compôs com o nome de mulheres. Assim como "Luiza", a mais famosa delas, por ter sido tema de novela, e que está presente neste disco. Enquanto a primeira canção canta os "olhos de inesperado azul" da amada e pede que ela não chore, a segunda é um primor de sucessão de versos muito bem construídos": "lua, espada/nua/brilha no céu/imensa e amarela/tão redonda lua", toda a natureza orquestrada para presentear com a "luz que reparte em sete cores" a amada retratada na canção.
Ah, nesta toada temos também, neste álbum, "Gabriela" em uma versão diferente da composta para a novela, misturando trechos de outras canções de Jobim inseridas no contexto. Mas estão lá, nessa versão mais longa, os famosos versos iniciais "...quando eu vim para este mundo/ eu não atinava em nada/ hoje eu sou Gabriela/ Gabriela ê.../meus camarada".
Exemplo máximo da perfeita parceria com Chico Buarque, Tom cobre de redondilhas os versos inesquecíveis de "Anos Dourados". Irônica, a canção menciona um ex-amor que deixa "confissões no gravador", carregado de nostalgia (..."na fotografia estamos felizes"...) e certeza do fim (..."mas como eu espero/teus beijos nunca mais"...). De quebra, Tom e Chico cantam juntos.
Do repertório dos clássicos compositores norte-americanos Ira e George Gershwin, Jobim dá uma chaqualhada bossanovista em "Fascinatin'Rhytm" e continua desnudando suas letras em inglês e sotoque novaiorquinocarioca no sofisticado jazz "Isabella" (outro nome de mulher) e "Chansong".
A natureza está muito bem representada, ainda, em "Brasil Nativo", samba pulsante, à lá Carmen Miranda, em parceria de Danilo Caymmi e letra excelente de Paulo César Pinheiro, uma propaganda das belezas selvagens do Brasil: "...e o que é que dá?/sussuarana e guará/e o que é que dá?...". "Samba do Soho", alegre e iluminada, demonstra o talento do seu filho Paulo Jobim, além de ser a única letra de Ronaldo Bastos gravada pelo maestro. CD para ouvir com orgulho de ser brasuca e ser invejado no mundo.
Escrito por Maciel às 18h53
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Discos Preferidos 7 - Novos Bahianos - "Acabou Chorare" -
Este é ótimo para um carnaval diferente, com guitarra e batucada. "Acabou Chorare", dos Novos Bahianos, sua Brasil em todas as faixas. Impossível não se contagiar com a ousadia harmônica do casamento da guitarra poderosa de Pepeu Gomes, a verve poética de Galvão, o talento incontestável de Moraes Moreira para produzir hits, além do carisma de Baby Consuelo e a afinação de Paulinho Boca de Cantor, linha de frente do enorme grupo.
Em seu segundo disco, após aprender lições de João Gilberto, os caras acharam o ponto ideal do seu mocotó musical. "Brasil Pandeiro", recolhido da obra clássica de Assis Valente, já abre o disco com o recado: "está na hora desta gente bronzeada mostrar o seu valor/ eu fui à Penha pedir à padroeira para me ajudar". Cosmopolitas, os gozadores querem ouvir "Tio Sam tocar pandeiro para todo mundo sambar".
"Preta Pretinha" dispensa apresentações, já que não pode faltar em qualquer roda de violão que preste. Quantos "eu ia lhe chamar enquanto corria a barca" já entoamos em coro por aí? "Tinindo, Trincando" abre outra vertente do estilo dos caras, com a guitarra de Pepeu Gomes rasgando, corte de navalha, e Baby desvairada berrando o misterioso refrão: "tiniindo, tiniiindo, tiniiindo, trincaaando...".
Para não deixar o clima cair, "Swing de Campo Grande", sobre o bairro da Bahia, traz uma mensagem implícita para todos aqueles que resolveram não "marcar touca" e virar "moita". "Acabou Chorare", a descrição do amanhecer na comunidade hippie, traduz o encantamento da maconha e da larica: "tudo ca-ca-ca na fé-fé-fé, no bu-bu-li-lindo, no bu-bu-bulindo..." Êta... Depois o cara viaja com uma abelhinha que entra pela fresta da janela e por aí vai, com o violão de Moraes em harmonia deliciosa.
"Mistério do Planeta" traz o tradicional tom esotérico do grupo, tratando da "lei natural dos encontros" e evocando a participação comunitário no "mistério do planeta". O pau volta a comer em "A Menina Dança", muito melhor que a versão popinha que Marisa Monte cometeu anos luz depois, com todo respeito. Baby entoando "e quando eu fecho olho a menina ainda dança", requebrando a voz no molejo da guitarra de Pepeu faz o ouvinte ter vontade de engolir o mesmo ácido que a danada deglutiu.
"Besta é Tu" é muito engraçada, apesar de ser lembrada por poucos malucos, quase um carnavalzinho. A instrumental "Um Bilhete para Didi" é uma ótima chance de conferir o talento dos instrumentistas da banda e para fechar, em outro andamento, nova versão... "Preta Pretinha" retorna, fechando um ciclo, um estado de espírito de encantamento. Viver em comunidade fazia muito bem a estes doidos. 
Escrito por Maciel às 16h02
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Discos preferidos 6 - Elis Regina - 1974
Difícil escolher um disco de Elis Regina. Depois de dois péssimos álbuns de estréia, que ela mesmo abominava, pois tentavam vendê-la, aos 17 anos, como a nova Cely Campello, a menina sentiu que não bastava timbre, técnica, emoção. Para se destacar ou se imortalizar, como é o caso, o repertório escolhido é a chave.
A "pimentinha", como era conhecida, lançou muitos compositores, conferindo a cada obra uma personalidade ímpar. Entre tantos, prefiro o disco chamado apenas Elis, de 1974, com a capa reproduzida acima. Longe há vários anos da bossa nova, que marcou o seu início definitivo no estrelato, em 1964, no programa televisivo "Fino da Bossa", aqui encontramos uma cantora absolutamente segura de si.
De cara, um clássico de Ary Barroso e Luiz Peixoto. Elis interpreta com tanta malemolência e garra a história de uma mulher que já é cercada, desde o nascimento, por "uma porção de vagabundo, da orgia" e, após o "batismo de fumaça", mama, com gosto, "um litro e meio de cachaça" que parece estar contando a sua vida.
Depois, emenda três clássicos de Milton Nascimento e Fernando Brant, uma de suas paixões. "Quando Milton abre a boca, é Deus que canta", chegou a declarar. "Travessia", com o refrão inesquecível "solto a voz nas estradas já não posso parar", que revelou o compositor mineiro, ganha uma versão pungente, com Elis pronunciando devagar, com dor, os versos "vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer".
"Conversando no Bar" é linda, passeia por reminiscências da companhia aérea Panair, onde foi consumida a "primeira coca-cola" e onde se rememora a "cerveja que tomo hoje". Já "Ponta de Areia", completando a trinca Milton, também trata de preservação do passado, ao lamentar a retirada dos trilhos da estrada "que ligava Minas ao porto, ao mar".
Do repertório de João Bosco e Aldir Blanc, Elis colhe três canções estupendas. O samba "O Mestre Sala dos Mares" é uma aula de história do Brasil, ao tratar da Revolta da Chibata, ocorrida em 1910, no Rio de Janeiro, quando um grupo de marinheiros rebelou-se contra um estado de servidão e chicotadas constantes que recebiam dos superiores. Por isso, ela brada, quase como um recado ao governo militar: "rubras cascatas/ rolavam das costas/ entre negros e chibatas/ inundando o coração do pessoal do porão".
"Dois Para Lá, Dois Para Cá", cativante bolero, é uma gozação com o gênero, com versos irônicos como "a ponta de um doloroso bandaid no calcanhar" ou "eu hoje me embriagando de wisky com guaraná". Dá vontade de sair dançando miudinho com o arranjo de César Camargo Mariano. "Caça à Raposa" é cheia de imagens, como "montarias freiam dentes brancos", cães correndo, gritos, o animal acuado pelos nobres cavaleiros. A voz de Elis inebria quando emplaca mais uma das comparações de Aldir Blanc "ah, recomeçar, recomeçar, como as paixões e epidemias".
De Gilberto Gil, Elis Regina grava as até então inéditas "Amor Até o Fim" (aquela, alegrinha, do "amor, não tem que se acabar/ até o fim da vida eu sei que vou te amar") e o recado quase em forma de carta "O Compositor me Disse", belíssima, para fechar brilhantemente o disco.
Escolho este álbum por que a cantora gaúcha estava no auge da sua potência vocal, alegre com a sua carreira (duplo sentido?) e casando dois grandes compositores que lançou, Milton e João Bosco, com o já famoso Gilberto Gil e o clássico Ary Barroso, tendência que sempre buscou adotar. Seguida, a risca, aliás, por sua filha, Maria Rita.
Escrito por Maciel às 15h39
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Discos Preferidos 5 - João Bosco e Aldir Blanc- "Galos de Briga"- 1972
"Galos de Briga". Alegoria para desavenças no seio tradicional da nascente classe média brasileira. Ou, na penumbra para a censura não perceber, um libelo contra os grilhões da opressão. Primor de sutileza para abordar assuntos tão polêmicos, o disco, lançado no olho do furação do governo militar, em 1972, afirmava duas carreiras promissoras. O violão técnico e endiabrado de João Bosco encontrava uma dicção harmônica toda própria. E o letrista Aldir Blanc afiava o gume da sua verve para sangrar o convencional.
"Incompatibilidade de Gênios", samba muito bem humorado, abre o CD dando voz a um marido que não aguenta mais ser atazanado pela esposa. Quando quer escutar o Flamengo jogar, a outra muda de estação e começa a cantar. Diante de um "pulo, um pulinho, um instantinho no bar", durante dez noites faz o pobre jejuar. Afirmação feminina é a tônica.
"Gol Anulado", em seguida, começa com os gritos da torcida campeã e relata mais um relacionamento esfacelado. Depois de três anos "vivendo juntos", período em que o marido "sempre disse contente/minha preta é uma rainha/porque não teme o batente/ se garante na cozinha e ainda é Vasco doente", o sonho desanuvia-se diante de três gols matadores de Zico, narrados com emoção no radinho de pilha. O grito de liberdade da mulher, agora sem medo de dizer que é mengo, gera o conflito. Aldir completa com as suas tradicionais comparações poéticas: "eu aprendi que a alegria/ de quem está apaixonado/ é como a falsa euforia/ de um gol anulado".
"O Cavaleiro e os Moinhos" é uma referência muito bem disfarçada, em andamento musical épico, aos jovens guerrilheiros urbanos de então. Como negar, diante de versos como "eu, baderneiro/ me tornei cavaleiro/ malandramente/ pelos caminhos/ meu companheiro/ está armado até os dentes/ já não há mais moinhos/ como antigamente"?. "Rumbando", entra, então, com balanço marcante do violão de João Bosco, para quebrar um pouco o clima pesado e permitir que Aldir floresça redondilhas geniais, que culminam no refrão poderoso: "as pedras da cordilheira/caíram na cristaleira/ gemedeira, tremedeira".
A costura conceitual segue sem esgarçar na triste "Vida Noturna", que encontra um camarada acendendo o cigarro "molhado de chuva até os ossos", com uma "estúpida esponja de pó de arroz" e um retrato dele e dela no bolso. A clássica "O Ronco da Cuíca" é uma porrada de prima no estado político vigente, atual até hoje. A cuíca grita o tempo inteiro enquanto Bosco pondera: "a raiva dá pra parar/ pra interromper/ a fome não dá pra interromper/ a fome e a raiva é coisa dos homi".
A saga engraçada de uma "escriturária do INPS" que tem na boca "dois pivôs tão graciosos entre jóias naturais". tornando-se consagrada em um concurso de segunda, o "Miss Sueter", compõe, com "Latin Lover", a música seguinte, dois personagens curiosos. Este último se define como um eterno amante latino "que hoje morre/ sem revólver/ sem ciúmes/ sem remédio/ de tédio".
Canção mais enigmática do álbum, apesar de tonalidades fortemente políticas, a faixa título, "Galos de Briga", traz um solo belíssimo de Bosco, para emoldurar as imagens contundentes de Aldir: "o rubro das ataduras/ o rubro das brigas duras/ dos galos de fogo puro/ rubras gengivas de ódio". O cotidiano hilário de um casal com mulher livre e homem encucado com esta nova moda compõem o cenário descrito no samba "Feminismo no Estácio". Estranhando muito o fato da mulher sair "só com a roupa do corpo num toró danado" e voltar com a blusa rasgada, "dor-de-cotovelo" e a cabeça inchada, o maridão até tenta "dar uma cacarecada", mas alega que só "não chia e não dá pancada" porque sua nega "é maior e vacinada".
A lenta "Transversal do Tempo", com mais uma comparação de Blanc (acho que o amor é a ausência de engarrafamento) e a marcha derradeira "O Rancho da Goiabada", com seus bóias-frias que, entorpecidos pela birita, sonham com "bife-a-cavalo, batata frita" e uma goiabada cascão de sobremesa, reforçam o gosto amargo de viver naqueles tempos.
Como não aplaudir de pé um disco que fecha com os ousados versos "palhaços/marcianos/canibais/ lírios pirados/ dançando-dormindo/ de olhos abertos/ à sombra da alegoria/ dos faraós embalsamados"? Grande carnaval das utopias e da censura? A maior cantora brasileira, Elis Regina, amou tanto o disco, que, ao longo de sua carreira, gravou quatro músicas deste repertório que precisa ser rememorado.
Escrito por Maciel às 11h08
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