mosaicos de prosa
   Os maçanetas

Toda turma de amigos ou família acaba criando palavras-código que só são entendidas por membros daquela comunidade. Em geral, gírias das mais estranhas. Foi com Giovanni (banda Bugre Véio) e com Natasha, sua namorada, que aprendi um apelido para o mala intelectual: maçaneta.

No começo estranhava bastante a alcunha. Depois é que recebi uma explicação próxima do plausível. Os filmes de arte costumam ser caracterizados por uma lentidão atroz, necessária para o devido aprofundamento do personagem ou do eu-lírico, como querem os legítimos maçanetas. Assim, quando uma porta vai ser aberta por um personagem, primeiro a maçaneta é focalizada por pelo menos 15 minutos. Tempo para o Outro do expectador sentir-se inserido no contexto claustofóbico do significado da porta fechada, sacou?

Depois, muito lentamente, uma mão vai entrando no quadro. Ah, em geral, uma música noiadíssima, quase sempre minimalista, soa ao fundo, monocórdica. A mão vai chegando e lá se vão mais 20 minutos de quadro fechado, tempo ideal para o maçaneta refletir sobre a censura na sétima arte e o impedimento da liberdade artística que simboliza aquela mão se aproximando da gelosia.

Finalmente, com meia hora de projeção e até mesmo com uma narrativa desconexa em off, a porta se abre e não há nada do outro lado. Exercício artístico da paciência. Bom, maçaneta, então, é o cara que não consegue deixar de analisar o mundo pelos prismas mais complexos e "em rede". Lê os autores da moda que falam do pensamento sistêmico e da confluência da religião com ciência.

Filmes mais caros que 10 mil dólares, feitos em digital tremida e, de preferência, remanescentes do Irã, são de gozar. O verdadeiro maçaneta vive a maçanetagem, mas o pior é quando todos estão reunidos. "E a experiência do não-lugar"? "Prefiro a teoria de Morin sobre o anel retroativo". "E nós somos mesmo filtro do objeto complexo?" A verdade é que o verdadeiro maçaneta nunca assume que é pernóstico ou pedante. Em geral, o ego já inflou mais do que air bag em acidente. Assumo, é claro, minha parcela maçaneta, pois até o meu sobrenome já foi adaptado para Macieneta. Mas me controlo todos os dias para ser mais simples, direto, objetivo. Viver. Simplesmente. 



 Escrito por Maciel às 15h44
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   Voto SIM ou Arma compensa impotência

Em 1995 tinha cabelos compridos, me vestia de preto, camisa do Doors, Led Zeppelin, barbona largada. Aparência ideal para o apelido "carniça". Estava eu em companhia do então meu colega Cientista, um black metal clássico de Campo Grande, também devidamente trajado de negro, na vila Planalto. Antes de irmos para a casa de um amigo, paramos para comer um sanduiche em uma padaria.

Enquanto devorávamos o pão com mortalela e queijo, notamos que uma mulher procurava desesperadamente a sua chave, que tinha caído em algum cantinho do balcão. A chave tinha sumido mesmo e tentamos até ajudar a encontrá-la. Sem sucesso, deixamos o caso, pagamos o sanduiche, saímos da padaria, fomos visitar o amigo mas ele não estava.

Sentamos então no parapeito de um comércio, que estava com as portas fechadas. Foi quando um cara guiando uma caminhonetinha da Fiat estacionou na nossa frente, distância de pouco mais de dois metros, na beira da calçada.

 - Vocês é que esconderam a chave da moça, não é seus vagabundos?.

Olhamos com estupefação aquele cidadão que havia chegado na padaria pouco antes de sairmos do local. Com ódio na pupila dilatada, o cara continuou acusando:

- Olha, ainda bem que acharam a chave perto de onde vocês estavam. Brincadeira de mau gosto seus filhas da puta.

Tentei protestar, pois aquilo já era demais. No entanto, ao ensaiar ficar de pé, o cara sacou imediatamente um revólver 38 do seu porta luvas e apontou em nossa direção.

- Olha a distância que eu estou de vocês, seus moleques. Para matar vocês dois é facinho.

Realmente passavam poucos carros naquela rua e meu coração acelerou. "Que merda", pensei, morrer por uma chave que nunca vi na minha vida. Um sentimento de injustiça me invadiu. Estudante do segundo ano de jornalismo, aquilo me indignou, mas sentei-me novamente.

 - Calma, rapaz - disse- Você não tem prova nenhuma do que está falando.

Meu medo era que aquele louco nos seqüestrasse ali mesmo para dar uma "lição". Felizmente, depois de nos dirigir mais alguns impropérios, o cidadão acelerou o carro e foi embora gritando.

- Marquei a cara de vocês. Sumam daqui da região e nem pensem em olhar minha placa.

Literalmente cagamos de medo ao esperar o ônibus lá perto. Demorei para superar o trauma. Fiquei por muito tempo de olho nas caminhonetes que passavam por mim. Também ficava elocubrando o que aconteceria com a gente se a chave não tivesse sido encontrada e o cara resolvesse nos "apertar".

Acredito que o referendo do próximo domingo, dia 23, não vai mudar muito a situação do Brasil. No entanto, voto SIM. Acho que a arma é um fetiche machista, que substitui a impotência e a brochada do camarada. Há pouquíssimos crimes com mulheres matando com armas, não é verdade? É mesmo uma compensação de uma insatisfação sexual, um pênis ejaculador de balas que só tem mesmo uma missão: matar. Esta é minha opinião.



 Escrito por Maciel às 17h03
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   Manias Únicas? 4 - Vejo DVD brasileiro com legenda

Esta mania parece estranhíssima, mas já explico. Em primeiro lugar, não sou surdo. Em segundo, só são alguns filmes brasileiros que pedem este artifício. Vamos lá: tente assistir, por exemplo, "Deus e o Diabo na Terra do Sol", principalmente na hora em que o cego, no meio das ruínas de Canudos, conversa com Antônio das Mortes. Nem o dolby ponto 5 da versão de DVD consegue chegar claro aos nossos ouvidos.

Outro cara que pede legenda e você também pode testar é o Domingos de Oliveira. Nosso Woody Allen fala em uma velocidade vertiginosa e enrolado pra caramba. Tente acompanhá-lo sem legendas em "Separações", por exemplo. Ovo na boca é pouco. Agora, "Lavoura Arcaica", em recente e belíssima versão em DVD, merece legendas por dois motivos especiais. Primeiro, é que Selton Melo criou um sotaque e uma forma de dizer o texto do grande escritor Raduan Nassar (O mesmo do também ótimo "Um Copo de Cólera") que alterna momentos de circunspecção inaudível e de explosão corporal com gritos difíceis de traduzir.

Outro motivo é a beleza do texto de Raduan, que merece ser lida na forma escrita da legenda. Experimente, o casamento de texto e imagem vai ganhar e muito. Documentários com tiozinhos ou surfistas também pedem uma legenda para que não se perca nenhum detalhe. "Edifício Master", do Coutinho, alterna boas dicções com aqueles figuras que precisam botar pedras na boca para dar uma treinada. O mesmo com o muito bom "Fábio Fabuloso", todo estruturado em forma de um velocíssimo cordel, que, sem legendas, paciência.

Por fim, há também os casos de alguns relançamentos de filmes nacionais que tinham problema de áudio já na estrutura, como o curioso "As Amorosas", de Walter Hugo Khouri. Diante destas reedições sem cuidado nos perguntamos sobre os coitados que pagavam ingresso nos bons tempos dos cinemas pré-era shopping e não entendiam nada. Não sei se convenci, mas assisto assim mesmo.

 



 Escrito por Maciel às 23h16
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