Voto SIM ou Arma compensa impotência
Em 1995 tinha cabelos compridos, me vestia de preto, camisa do Doors, Led Zeppelin, barbona largada. Aparência ideal para o apelido "carniça". Estava eu em companhia do então meu colega Cientista, um black metal clássico de Campo Grande, também devidamente trajado de negro, na vila Planalto. Antes de irmos para a casa de um amigo, paramos para comer um sanduiche em uma padaria.
Enquanto devorávamos o pão com mortalela e queijo, notamos que uma mulher procurava desesperadamente a sua chave, que tinha caído em algum cantinho do balcão. A chave tinha sumido mesmo e tentamos até ajudar a encontrá-la. Sem sucesso, deixamos o caso, pagamos o sanduiche, saímos da padaria, fomos visitar o amigo mas ele não estava.
Sentamos então no parapeito de um comércio, que estava com as portas fechadas. Foi quando um cara guiando uma caminhonetinha da Fiat estacionou na nossa frente, distância de pouco mais de dois metros, na beira da calçada.
- Vocês é que esconderam a chave da moça, não é seus vagabundos?.
Olhamos com estupefação aquele cidadão que havia chegado na padaria pouco antes de sairmos do local. Com ódio na pupila dilatada, o cara continuou acusando:
- Olha, ainda bem que acharam a chave perto de onde vocês estavam. Brincadeira de mau gosto seus filhas da puta.
Tentei protestar, pois aquilo já era demais. No entanto, ao ensaiar ficar de pé, o cara sacou imediatamente um revólver 38 do seu porta luvas e apontou em nossa direção.
- Olha a distância que eu estou de vocês, seus moleques. Para matar vocês dois é facinho.
Realmente passavam poucos carros naquela rua e meu coração acelerou. "Que merda", pensei, morrer por uma chave que nunca vi na minha vida. Um sentimento de injustiça me invadiu. Estudante do segundo ano de jornalismo, aquilo me indignou, mas sentei-me novamente.
- Calma, rapaz - disse- Você não tem prova nenhuma do que está falando.
Meu medo era que aquele louco nos seqüestrasse ali mesmo para dar uma "lição". Felizmente, depois de nos dirigir mais alguns impropérios, o cidadão acelerou o carro e foi embora gritando.
- Marquei a cara de vocês. Sumam daqui da região e nem pensem em olhar minha placa.
Literalmente cagamos de medo ao esperar o ônibus lá perto. Demorei para superar o trauma. Fiquei por muito tempo de olho nas caminhonetes que passavam por mim. Também ficava elocubrando o que aconteceria com a gente se a chave não tivesse sido encontrada e o cara resolvesse nos "apertar".
Acredito que o referendo do próximo domingo, dia 23, não vai mudar muito a situação do Brasil. No entanto, voto SIM. Acho que a arma é um fetiche machista, que substitui a impotência e a brochada do camarada. Há pouquíssimos crimes com mulheres matando com armas, não é verdade? É mesmo uma compensação de uma insatisfação sexual, um pênis ejaculador de balas que só tem mesmo uma missão: matar. Esta é minha opinião.
Escrito por Maciel às 17h03
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