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Fellini circense e onírico
Fellini sempre exige do expectador um mergulho sem escafandro na magia. Não espere uma história linear, um elemento de suspense a ser resolvido. É como a vida, várias pessoas falando ao mesmo tempo, mil acontecimentos cercando os nossos dilemas. Só que a câmera passeia, astuta, por todos os diálogos no meio da balbúrdia.
Circense, sempre há um elemento de pantomima, música animada, ânimos exaltados em algum momento de suas películas. Sem falar nas canções de Nino Rota, embalando o onírico das imagens. Costumam dizer os críticos que o Fellini da década de 1980 é "menor" do que o da época de "Armacord", da década de 70 ou mesmo o inesquecível "La Dolce Vita", de 1962. Começei a rever os meus conceitos ao assistir, neste final de semana, "A Cidade das Mulheres", de 1980 e "Ginger e Fred", de 1986.
Frutos de um cineasta maduro, as duas fitas tem um tom de humor irresistível e são um convite para uma viagem à alma humana. Mastroiani, o alter-ego do cineasta italiano, está em ambas, também um ator calejado e completo. Já Giullieta Masina volta, após longos anos sem filmar com o marido, a abrilhantar com o papel de uma imitadora de dançarina em um programa de televisão.
"Cidade das Mulheres" é muito divertido, relata as peripécias de Mastroianni em um local que parece ter sido tomado por uma imensa convenção feminista. Destaque para as cenas em que ele encontra um último reduto machista no meio de uma floresta, uma mansão com um tio indignado. Dentro, uma sala com vários quadros que, ao acionar de um interruptor, excitam o ouvinte machista gemendo os clamores do sexo, cada qual ao seu modo. Puro Fellini. Ou uma multidão de mulheres patinando e cercando o nosso herói, atarantado com tantos cobranças. "Masturbação", "Castração", "Matrimônio, manicômio", "O Fellacio obriga a mulher a uma condição subalterna" são gritos de ordem que o galã tem de ouvir ao perseguir uma pequena rumo a um mundo desconhecido. Discussão da alma feminina com o olhar masculino, poema.
Já "Ginger e Fred" destila o ódio que Fellini nutria pelo mundo do espetáculo televisivo, retratando o reencontro de dois decadentes imitadores de Ginger Rogers e Fred Astaire na sala de espera de uma atração de TV. Os diálogos sobre a decadência, o fim da magia, o consumismo, a arte embalada para ser deglutida sem problemas são a tônica de todo o roteiro. As interpretações de Giulietta, sempre muito rigorosa em seus papéis e de Mastroianni, o perfeito boa-vida, estão magistrais.
Destaque para o momento em que eles finalmente entram no palco e não lembram passo algum das coreografias, armando um jogo de olhares e sorrisos que poucos atores conseguem alcançar. Quem assiste Fellini sai com a alma lavada, torcida, secada e passada.
Escrito por Maciel às 18h11
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Cinemas de outrora
Alhambra, Rialto, Estrela, Santa Helena, Auto-Cine, Center, Plaza, Jalisco, Acapulco, Havaí I e II, Shopping I e II, Campo Grande I e II, Cinemark com 10 salas, Cultura. Tantos nomes para tantas salas de cinema, a maioria em ruínas. O que outrora era espaço de encontro, namoro e exibição de status social hoje está reduzido a emoções caríssimas e frívolas, como um fast food da já desgastada sétima arte (?).
As salas multiplex de shopping, em um fenômeno mundial, dominaram o cenário. Cinemas suntuosos de mais de mil lugares, como eram comuns, desapareceram, substituídos pelo conforto das exibições televisivas, de video-cassete ou DVD. Minhas alunas Marinete Pinheiro e Neide Fischer acabam de entregar para avaliação de banca final de curso de Jornalismo da Uniderp o livro-reportagem "O Sonho de Orrico-Passado e Presente das Salas de Cinema em Campo Grande".
Como o nome sugere, trata-se de uma pesquisa exaustiva, com várias fontes, para recuperar a memória daqueles espaços que já foram de grande sucesso em Campo Grande. Sou o orientador do trabalho, que terá defesa pública no bloco V da Uniderp, campus da Ceará, no dia 17 de novembro, às 19 horas. Orrico, antes que me perguntem, veio da Itália para se estabelecer na remota Campo Grande no início do século XX. Promoveu as primeiras exibições de cinema na cidade, ao ar livre, em um grande pano branco colocado em uma das paredes do Hotel Democrata, que ficava na rua do Padre, ao lado da Igreja Santo Antônio.
Em 1932, Campo Grande já abrigava, na rua 14 de Julho, o saudoso cine Trianon, com inimagináveis 1,3 mil lugares. O Cine Alhambra, de arquitetura antiga, tinha 1,7 mil lugares, incluindo camarotes para autoridades, além de cortinas em veludo verde. No livro, o cine Alhambra, que ficava na Afonso Pena, salta da memória do ex-projetista Adão Mathias, que destaca os grandes sucessos, como "O Menino da Porteira" (1976) e os 1,8 mil lugares do local. Outro achado das pesquisadoras foi o cartazista Alexandre Oliveira, que conta como eram feitos à mão os reclames dos sucessos da época, com histórias engraçadíssimas.
O Auto-Cine, um drive in que existia no campus da UFMS é relembrado nas páginas do livro a partir das recordações de dois ex-coordenadores. Bem como a decadência dos cinemas Center e Plaza. "Ali frequentavam homens, mulheres e crianças de todas as classes sociais. No estacionamento não havia vaga nem de dia nem de noite", lembra um antigo administrador. Hoje, a média por sessão pornográfica chega a incríveis 300 pessoas por final de semana.
É claro que o incêndio do Acapulco, que ainda exibe sua carcaça cinzenta na 26 de agosto também merece destaque, com as suas características criminosas nunca, porém, comprovadas. Outra grande lacuna preenchida pelas autoras é a história dos cineclubismo na cidade, capitaneada por Maria da Glória de Sá Rosa, Cândido Alberto da Fonseca e Celso Arakaki. São histórias sensacionais de dribles na Polícia Federal para exibir, em locais diferenciados, filmes considerados subversivos.
A triste contestação ao final de todo esse rol de recordações é a destruição do cinema como espaço mágico de encontro. Hoje, resta o espaço do capital, com raras exceções, como um Cine Cultura com problemas de sede e um Cine Clube de platéias esvaziadíssimas. Ah, e o Campo Grande, que, mesmo diante do mastodonte Cinemark, atrai muitos para as salas do centro com preços baixos de ingresso.
Escrito por Maciel às 18h36
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