mosaicos de prosa
   Impressões da Paulicéia 2- Rapa sob o Masp ou sob a benção de Chatô

Aqui, olhando debaixo, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) parece uma caixa de vidro e concreto. Curiosa a sua arquitetura de 1968 não apresentar muito contraste em termos de modernidade com a suntuosidade dos prédios da avenida Paulista. A via da loucura, o coração financeiro de São Paulo, palpita alguns metros adiante. Carros em alta velocidade, sirenes, pessoas que, ainda acredito, andam depressa mais por uma reação natural da cidade do que pelo fato de realmente estarem com pressa de chegar a algum lugar. Como jornalista, imagino a força do sonho de um homem como Assis Chateaubriant. Doido, trouxe para o Brasil quadros de Cezanne, Van Gogh, além de uma invejável coleção de arte moderna brasileira. O mesmo visionário contraditório e de princípios antiéticos que concretizou a aventura de trazer a primeira emissora de televisão em 1950 para o Brasil. O país foi o quarto a conhecer a telinha no mundo.


Estou sentado com o meu amigo Giovanni em uma área dominada por hippies à sombra do museu. Este separa essa área e a avenida Paulista. Abaixo, observo o movimento de outras ruas, já que estou em um amurado. Estamos conversando com um rapaz que, por coincidência, diz ter nascido em Campo Grande e saído cedo da cidade. Fala do seu trabalho de artesanato enquanto costura uma touca com uma linha verde. Fascino-me com o social. De repente, um picolezeiro se aproxima da conversa com um olhar meio assustado. Puxa assunto, fala um tanto descompassado. Logo percebemos o motivo. Do nada, soa uma sirene intensa e divisamos motos e policiais se aproximando, invadindo a espécie de calçadão em que estamos.

Susto. Será que vão nos acusar de alguma coisa? Mas logo essa impressão passa, pois, na verdade, os quatro guardas, entre eles uma mulher, querem mesmo é dar uma chincha no picolezeiro.

- Olha, nós já avisamos você que mudou o chefe da área.

- Mas vocês tem de me deixar trabalhar, não podem fazer isso com um trabalhador. Como posso sobreviver?

Os policiais, mesmo diante da gente, sequer nos dirigem palavra. É como se fizessem um teatro particular para os turistas. Para mostrar que não há vez para ambulantes clandestinos na Paulista, na Babilônia em chamas. Ainda de coração disparado, continuo conversando com o rapaz da touca e de olho na cena de repressão que se desenrola à nossa frente.

- Olha lá, eu avisei. Está vindo o novo chefe.

Realmente vem chegando um cara gordo com um traje branco, para assombro do picolezeiro, que está indignado. Os policiais abrem o compartimento do carrinho e tiram, sem cerimônia, as placas que congelam os sorvetes. Não levam a mercadoria, preferem agir com mais sadismo, inviabilizando-a. Aproxima-se também um furgão para recolher devidamente a mercadoria proibida, as placas. A partir de então o grosso dos policiais embarca no veículo, o motoqueiro sobe na moto e partem em velocidade para a Paulista. Há muitos a policiar, perseguir, torturar psicologicamente.

O picolezeiro, irônico, não se intimida e ainda aborda os policiais já dentro do carro enquanto espera a chegada do fiscal que vai multá-lo.

- Porra, vocês tem que ir para a favela onde o negócio tá pegando fogo. Vai prender bandido, não incomodar trabalhador.

- Lá a chapa está quente. O bicho está pegando - responde o policial antes de sumir do mapa.

A cena termina com o picolezeiro aplaudindo a caravana que parte e o fiscal que chega.

- Belo trabalho. Parabéns.

No dia seguinte, voltei ao Masp, agora para conhecer o museu com Yara. Infelizmente, não há nenhuma exposição temporária, só a permanente. Esta, no entanto, vale a pena. Me emociono com um quadro de Cezanne, duas mulheres navegando em um lago. Também é impressionante o quadro "Tentações de Santo Antão", do mestre flamengo Hieronymus Bosch impressionante surrealismo, pintado em 1500, o retrato de um pesadelo desconexo e cheio de figuras muito estranhas, meio humanas, meio animalescas. Não há como não ficar impassível ao jornaleiro de Van Gogh, ou ao solitário passeio do casal no jardim do mesmo autor. Aquelas cores borradas, esquizofrênicas.

Durante nossa visita ao museu, um grupo de crianças aprende sobre arte com uma orientadora. Ela ensina que é preciso olhar o quadro de perto e de longe também, para melhorar e apurar a perspectiva sensível. Lindo. Também percebo a decadência do museu, já que boa parte do acervo clássico parece ausente, talvez em viagem, mas, provavelmente, em reconstituição. Impossível observar com atenção todos os quadros. Lá fora, na Paulista, o quadro social se descortina. Cruzamos novamente com a trupe de policiais que havia comandado o show de truculência no dia anterior. Olhares atentos, desconfiados. Ainda escuto, baixinho:

- Olha, ali vai outro. Vamos pegá-los.

A Babilônia prossegue respirando, exasperada...

 



 Escrito por Maciel às 19h55
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   Impressões da Paulicéia 1 - Chico no tom ou caipirinha 9 paus

Ao entrar na casa de shows Tom Brasil, em São Paulo, lanço uma praga involuntária sobre o sistema de vendas de ingressos por internet. Mesas coladas, seis pessoas apertadas em cada uma,inclusive de costas para o palco, distantes anos-luz do artista. R$ 150 paus para isso? A noite tão esperada de assistir um show de Chico Buarque, desde a primeira coletânea comprada pelo meu pai aos 12 anos, com o compositor tragando um cigarro, parecia começar mal. Pelo menos o casal da frente é simpático. Dizem que, como eu e Yara, nunca viram o show do homem. Vieram do Paraná e também estão fulos com as acomodações. Peço o cardápio e percebo mais uma surpresa. Cerveja R$ 6,00 a lata?? Será que entrei em um puteiro por engano? Água R$ 5 mangos? Puts, o melhor foi pedir duas caipirinhas atoladas de gelo aos preços "camaradas" de 9 reais cada uma...E fechar a conta que o táxi já custou R$ 70,00 ida e volta.


Tento não pensar nos gastos e me preparar para o show. A primeira medida é puxar a cadeira para um corredor próximo, enlaçar minha mulher e ter, assim, uma visão longínqüa, porém mais confortável do palco. Percebo o cenário, simples, econômico. Uma estrutura de metal representando de um lado, o sol, de outro a lua e amparando um lindo planetário caleidoscópico. Durante o show, uma profusão de luzes variadas rebatia nesses pontos de reflexo e criava imagens bastante curiosos. No mais, o cenário se completa com a capa do disco.


Já vim para o show armado, preparado demais, o que prejudicou minha relação de emoção com o artista. Como tenho todos os discos, sei letras de cor, o caramba, achava que seria uma choradeira do começo ao fim. Não foi o caso. Tanto eu fui racional quanto Chico Buarque, técnico demais no palco, apesar de sublime. Sabia que seriam as 12 músicas do disco, que estou ainda assimilando. Sabia que o show seria completado com um repertório mais anos 1980 do que 1970 e 1960 o que, com certeza, decepcionou muita gente. Neste quesito não me espantei, gosto da fase focada, que traz pérolas do tipo "Mil Perdões", "Ela é Dançarina", "As Vitrines", "Morena de Angola", "Sambando no Toró".


Entra a banda. O melhor da festa. Wilson das Neves é um furor no comando de vários elementos percussivos, realmente um músico excepcional. Em parceria com Chico Batera na bateria e Jorge Helder no baixo, formam uma cozinha furiosa, extremamente inteligente. Luiz Cláudio Ramos, no violão é a cabeça melódica e harmônica do show, técnico, sério, dedos passeando lépidos pelas cordas. Marcelo Bernardes é doçura pura na flauta, clarinete e flauta transversal, que fazem toda diferença na primeira canção própria que Chico emenda: "Mambembe", essa, da década de 1970. "Morena de Angola", de 1981, levanta o público, que bate palmas junto e ri muito do esquecimento de um dos versos da música quilométrica. No lugar do "ai, ai,ai,ai,ai,ai", que, no disco original é comandado por um coral feminino, entra em cena um curioso instrumento africano que gera frisson ao ser filmado em um dos três telões que me ajudam a enxergar melhor o contexto geral do palco.


Após essa seqüência matadora inicial, Chico emenda um inusitado bloco blues/jazz com a pouco conhecida "História de Lily Braun", do disco "Grande Circo Místico", emendada com "Mil Perdões", com célebre refrão ("te perdôo por te trair") e, pasmem, "A Bela e a Fera", obscuríssima, antes só interpretada por Tim Maia. O show entra, então, em um perigoso período de músicas muito lentas e pouco conhecidas. Chico emenda todas as músicas românticas do novo disco e vai tentando costurar contextos (a alma da set list) com as mais conhecidas "Eu Te Amo" (Ah, se já perdemos a noção da hora...) e "As Vitrines" (...na galeria, cada clarão é como um dia depois de outro dia...). Como fã, acho tudo muito inteligente, porém pouco emocional. Cada letra parece emendar com a outra com perfeição. Por exemplo, na seqüência: "Ela é Dançarina" (...o nosso amor é tão bom, o horário é que nunca combina...); "Ela Faz Cinema" (...quando ela chora eu não sei se é dos olhos pra fora...) e "As Atrizes" (...são tantos filmes na minha mente que é natural que toda atriz...). Há, também, constantes homenagens ao Rio de Janeiro, como "Morro Dois Irmãos" (...Dois Irmãos, quando vai alta a madrugada...), "Futuros Amantes" (...e quem sabe então o Rio será, alguma cidade submersa...) e a bela faixa inicial do novo disco, "Subúrbio" (...lá tem Jesus mas está de costas...).


O melhor fica para o final. Um cara passa com uma lanterninha estratégica ao meu lado na mesa e aproveita para cobrar a facada de R$ 18 paus pelas duas caipirinhas. Resolvo burlar as mesas e vamos, eu e Yara, para a frente do palco. Chegamos a tempo de ver uma apoteótica interpretação de "Quem te Viu, Quem te Vê", devidamente entoada em conjunto pelos presentes, "João e Maria" (...agora eu era herói...) e do animado samba "Sem Compromisso" (...Você só dança com ele e é sem compromisso...). Todos parecem satisfeitos. Todas as mulheres apaixonadas, inclusive a minha. Até um cara grita:


- Chicooo eu te amo.


Ainda tento gritar uma mais inusitada:


- Jorgeee Maravilhaa.


Ninguém conhece e muito menos eu sou ouvido, já que o burburinho no final do show é geral, com todo mundo já de pé nas suas mesas, quebrando toda lógica capitalista-sardinha. Saio feliz, afinal era um sonho antigo. Mas queria ter batido uma bolinha com Chico depois do show e dizer:


- Faltaram aquelas...    



 Escrito por Maciel às 16h41
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