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Pogueando de nostalgia ou Caos no Pantanal
H.I.V. (1992), Crazy Dick (1990), Os Impossíveis (1993)? Estou, eu e Yara, no bar do Edgar, Farol, Boteco, Fim de Século? Largado em uma Campo Grande em qualquer canto da década de 1990? E esses caras das "antiga" pogueando, felizes, mais gordos, mais carecas, mais sérios ou mesmo cuspidos e escarrados como sempre foram? Esse clima de inferninho, calor de 45 graus, janelas fechadas, três acordes econômicos e poderosos rasgando a alma, a bateria estucando? As letras que misturam crítica social, mas, também, com uma banda em específico, alegria, amor, desilusão, elementos de histórias em quadrinhos e games? Por algumas horas permito mesmo que meu corpo e minha mente se deixarem ali, largados, naquele recorte de tempo que foi a festa "Caos no Pantanal", sábado, dia 4 de novembro, no Chacaras Bar.
A frase mais ouvida no recinto minúsculo, fechado, sufocante, porém explodindo de calor humano e nostalgia incontida, era: "Até você por aqui?". Ou: "Olha, veio toda a velharada". Ou ainda: "Olha, os caras das antigas". Muitos abraços calorosos de quem há muito não se via ou se falava, mesmo morando em uma mesma cidade e com todos os instrumentais tecnológicos. Mas o que estava vivo, ali, mesmo, eram as bandas já extintas, em suas formações originais. Todas se apresentaram em um canto, sem palco, constantemente dividindo os microfones com um público desvaidado, um chamanismo personificado naqueles pogos em poucos centímetros quadrados de espaço. Os mais novos achavam que era até porrada. Já mais gordo que na época, não me arrisquei a sair saltando, chutando, espalhando sopapos fictícios. Mas, encostado em outro canto, sorridente, transbordando de felicidade, entendia, anos depois, o signicado daquela cena.
O Crazy Dick foi a primeira porrada na cara depois da abertura competente dos Bizarros. Ver aqueles caras reclamarem dos mesmos problemas de som mas não ligarem, deixando a guitarra rasgar e gritando letras do passado, foi surpreendente. Nas letras, referências aos bares clássicos, à tradicional modorra de uma capital sem oportunidades, um vocalista carismático, sério, olhar incisivo, mastigando e cuspindo cada palavra como uma profecia realizada. O público, a princípio quieto, logo inicia o balé dos braços e pernas estiradas aleatoriamente. Suo às picas. Não tem circulação de ar, mas a emoção aumenta devido justamente à lembrança daquelas velhas condições. Um ambiente clean, com som limpo, seria um desrespeito com aqueles clássicos, feitos para serem devidamente deglutidos em forma de maçaroca sonora, um golpe certeiro nas vértebras.
Sempre nutri um carinho especial pela banda Os Impossíveis. Fugindo da necessidade da crítica social premente, Cebola, o vocalista carismático e com um estilo ultra-pessoal entre Elvis e rockabilly desvairado e Jean, hoje um dos maiores bateristas do estado em seu gênero, maduro, coerente, sempre preferiram abordar temas-tabu, como o amor (????) por exemplo. Tudo destilado com uma fina ironia que não se encontra tão facilmente na cena atual, mesmo a de pop rock clássico. A performance foi um show a parte, comandada pelos gritos de Cebola: "Toque mais uma, maestro". O canto, agora, é coletivo. Tanto dos que lembram de todas as letras de cor quanto os que, não contentes com a participação de fora, invadem o canto do bar improvisado como palco e tomam os microfones para cantar juntos, catárticos. Será o efeito da sexta cerveja garrafa, do suor, do sufocamento ou vivo mesmo uma estranha sensação de comunhão quase dionísica, pagã?
Para o H.I.V., a clássica banda de Kão e o nosso saudoso e hoje pai de família, Vander, uma pausa para dar uma respirada lá fora. Em uma mesinha, fitas-demo saídas de baús, registros a R$ 3,50 de muitos petardos que nunca foram gravados em CD. Lembro da facilidade da tecnologia atual, da forma muito mais dinâmica de troca de informações entre bandas, via e-mail, My Space, You Tube, Orkut, páginas pessoais, trocas de MP3, gravações em estúdios caseiros, mil selos alternativos. Recordo da dificuldade enfrentada pelos punks de Campo Grande e do estado na década de 1990: a correspondência por cartas, os shows improvisados nos locais mais estranhos, o esquema de intercâmbio de bandas a troco de chucarrasco e estadia. Aquela vontade de sacudir a modorra de uma cidade sertaneja da porra...
Kão não se cabe de felicidade. Agitador cultural clássico, ainda em plena atividade, figura fácil em todas as baladas underground, esse senhor que não perde a cara de menino punk é o significado presente de tudo aquilo. "Moro em Campo Grande, cidade pantaneira" é bradado por todos os trinta ou mais presentes. De arrepiar. A essa hora, não importa mais a qualidade do som, o calor, as instalações. Importa é o tesão da recordação de uma cena única. Fico contente ao saber que as bandas vão continuar as suas apresentações, em outros locais, como fizeram mesmo, no domingo, em um evento aberto. Precisamos organizar um show para filmar todos os depoimentos, as histórias de época, entremeadas pelas performances recheadas de atitude. Me ofereço para ser o entrevistador. E vamos poguear para o infinito...
Escrito por Maciel às 18h44
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